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É incômodo ser o
Cristo hoje
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É incômodo ser o Cristo hoje”

Cristo nunca esteve no Zaire. E muito menos no Japão, na China, ou na Índia. Nunca se encontrou com um australiano ou com um habitante do Polo Norte. Encontrou-se somente com os habitantes da sua pequena Palestina. Nos três anos de sua “vida pública”, não foi a todos os países do mundo. Porém, os conhecia e queria atingi-los a todos.

Para realizar este seu desejo contou com “sua segunda vida”, a Igreja. Ela irá no Zaire, no Japão e ao Polo Norte. Ela é o “Novo Corpo”, dado a Cristo para prolongar a sua visita física até os confins do Universo.

Este é único motivo do existir e de ser da Igreja: foi fundada somente para isso. É a sua missão: existe  exclusivamente para alcançar os homens e mulheres de todos os tempos e de todos os países, para levar a cada um pessoalmente, o convite de Cristo: “O Pai o que na sua família”.

A Igreja, isto é, Cristo hoje, como se encontra a sua missão? Como está reagindo diante dos problemas do mundo atual? Recusamos de antemão toda e qualquer “elucubração”, e queremos com coragem encarar a realidade. Um confronto entre o “Plano universal do Pai” e a situação atual, oferece o motivo a uma profunda constatação, infelizmente inegável.

“A coca cola é mais conhecida do que Jesus Cristo”
 

Primeira constatação: A maioria da humanidade (83%), está ainda fora da Igreja.

E isto de pois de Dois mil anos de Cristianismo, dizia um jovem operário.

Sejamos sinceros: Na Ásia o cristianismo não existe. Se excluirmos as Filipinas, a população cristã na Ásia cai, desaparece, só o 09% é cristão. O imenso Continente asiático, que contem 56% da humanidade, não se encontrou ainda com Cristo.

Nas grandes cidades orientais: Tóquio, Shangai, Singapura, Calcutá, Cristo faz a figura mesquinha de um estrangeiro: Eu sou um estrangeiro que se chama Cristo.

“No Japão Cristo não é odiado, é simplesmente ignorado. Para a maioria dos japoneses, Cristo é um ilustre ignoto”.
 

Segunda Constatação: A Igreja está em constante diminuição.

Quando Cristo morreu a humanidade que esperava a “ressurreição”, não ultrapassava os 270 milhões. Hoje ultrapassa a casa dos 5 bilhões.

Os católicos aumentam cada ano de 50 milhões; é muito. Mas os não católicos aumentam de 150 milhões: três vezes mais. No fim de cada ano existem dezenas de milhões de irmãos fora da Igreja, que conseqüentemente, não conhecem Jesus Cristo, e assim aumentam a desproporção numérica entre o mundo cristão e aquele não cristão.

Na Ásia a desproporção numérica é ainda mais evidente. Nos próximos cem anos, ao ritmo atual, cem milhões de não cristãos conhecerão a Cristo, mas ao mesmo tempo o número total daqueles que nós deixamos sem Cristo, triplicarão, isto é, Cristo entra lentamente na história da Ásia.
 

Terceira Constatação: Existe um absoluta desproporção entre a finalidade da Igreja e os meios humanos para realizá-la.

A finalidade é precisa e clara: aproximar-se de três bilhões e meio de pessoas para colocá-las na “Vida de Deus Pai”. Quais os meios que a Igreja tem para alcançá-las? Um inventário completo nos mostra dados impressionantes. Levemos em consideração somente dois fatos:

a) Os Sacerdotes Missionários, aqueles que fazem viver Cristo, onde não é “vivo”: Quantos são? As cifras oficiais dão um número aproximadamente de sessenta mil. É uma cifra insignificante diante da missão a eles confiada: alcançar três bilhões e meio de pessoas.

Desta cifra devem subtrair-se aqueles que estão empenhados como professores nas escolas, nos Seminários, nas Universidades, os que dirigem obras de caridade, de comunicação ou de obras sociais. Devem também subtrair-se aqueles que se dedicam a quantos já são cristãos.

Mil “ramificações de Cristo” devem alcançar três bilhões e meio de pessoas. Nestas condições por que maravilhar-se  se os progressos da realização do Plano de Deus Pai não são mais rápidos?

A Igreja, para ser  “verdadeiramente Cristo” em todo mundo e para cada homem e mulher deste nosso tempo, deveria ter no mínimo trezentos e cinqüenta mil sacerdotes missionários.

b) Para um trabalho de penetração capilar a Igreja serve-se dos catequistas, isto é, dos cristãos locais, que aprofundaram a mensagem de Cristo e gastam a maior parte do tempo livre para difundi-la: são a força da missão. Cada um deles “é Cristo” para mais de mil pessoas não cristãs até onde possa estender-se fisicamente seu campo de ação.

Para que Cristo possa atingir capilarmente cada pessoa, deveriam existir três milhões e meio de catequistas nas missões. Não ultrapassam os quinhentos mil. Por que? À missão, isto é, à Igreja, faltam os meios, para promover, com um justo salário, o sustento deles e de suas famílias.

Eis a realidade: Há uma desproporção estridente entre a finalidade primeira e essencial da Igreja, entre aquilo pelo qual ela existe e a força que possui para realizá-la. Isto quer dizer que a Cristo falta a força que “deveria haver”.

A consequência é trágica: Para muitos países Cristo nunca existiu, é como se hoje não existisse. “O Cristo de hoje” não tem força suficiente para ser Cristo verdadeiramente em todo mundo.
 

Nós, os cristãos tímidos:

São constatações inegáveis. Porém, “constatar não é “aceitar”. Para nós cristãos, foi abolida a resignação. Não nenhuma razão para a acomodação, para “deixar como está para ver como é que fica”. Nós queremos simplesmente recusar semelhante situação. É necessário convencermo-nos de que “nós, cristãos tímidos”, devemos aceitar a proporção exata da nossa fé e acabarmos de uma vez por todas de sermos os eternos católicos na defensiva.

A sua vida, a de “Cristo hoje”, é posta num drama vivo e atual de não consentir distrações: é o drama do Espírito de Cristo, o drama de sentir-se impotente ainda hoje, diante de três bilhões e meio de pessoas que ainda o ignoram.
 

Apresento-lhe o missionário

A Igreja é Cristo. É a sua segunda vida. É o corpo que lhe foi dado para que pudesse levar a cabo a obra que somente com a sua vida física não fora possível realizá-la. Tem, pois, uma continuidade de vida entre os cristãos e a Igreja. Mas como se explica? Qual a ligação íntima entre as duas vidas?

Você não imagina a beleza e a grandeza da resposta. Leva-nos à descoberta da realidade mais profunda e fascinante de todo o cristianismo. Hei-la: O mesmo Espírito que estava presente no Cristo, está agora na Igreja; como encorajava Cristo, agora, neste nosso tempo encoraja a Igreja.

Para entender verdadeiramente a beleza fascinante dessa constatação, ocorre ainda perguntarmo-nos: Este Espírito Santo o que é? Na medida em que dermos uma resposta profunda a estes interrogativos, compreenderemos o que é a Igreja e o que são as “missões”.
 

1. O melhor adjetivo que vinte séculos de cristianismo deram ao Espírito foi o de chamá-lo de “Vificador”: isto é, “aquele que dá a vida”.

A melhor definição o chamou de “impulso”, de “afeto”, de “amor”; é o impulso segundo o qual o Pai se joga nos braços do Filho e o Filho nos braços do Pai. É o amor apaixonado que o Filho lhe dá como resposta.
 

2. Veja agora Cristo: a sua vida entre nós não foi senão a expressão visível do “impulso” dirigido ao Pai. Era este impulso que o levava a agir a fim de realizar o Plano de Deus Pai, pondo em sua alma a ânsia e o tormento pelo Reino.

Era o Pai a “paixão” de Cristo: Aquele que o rebaixou a condividir a nossa humanidade e depois o pôs na Cruz para os irmãos. A obra de Cristo é toda  ação do Espírito. Era Ele o mentor.
 

3. Este mesmo Espírito está agora na Igreja: é a sua vida e a sua alma.

É por meio dele que a Igreja é um “ser vivo”. A Igreja tem verdadeiramente uma vida dentro de si. Ela sente. Pulsa forte. Freme. Tende a exprimir-se e a expandir-se. Toda a ação da Igreja nada mais é do que a participação no impulso apaixonado com o qual o Filho se joga em direção ao Pai.

A Igreja sente em seu sangue a impetuosidade deste impulso. É uma inquietação divina que a faz vibrar. É um estímulo da vida, é um verdadeiro e incessante martelar que grita em seu corpo o desejo de doar-se.
 

O Espírito, isto é, o impulso do Filho ao Pai, impõe à Igreja o seu ritmo. Não lhe dá paz. Persegue-a. Atormenta-a. Cria nela a mesma ânsia do Cristo pelo Reino, para o Plano do Pai, para a salvação de todos os irmãos.

Tudo o que a Igreja tem de vivo, de movimento, de ação, encontra somente nele a explicação. É Ele que em cada época da história fez da Igreja uma comunidade missionária: nunca mais a deixou satisfeita de si, como se tudo estivesse já consumado. Sempre impulsionou-a a deixar sua posição de privilégio, para alcançar novas posições a fim de realizar o Plano de Deus Pai.
 

O missionário, quem é?

Como todo cristão, o missionário é Cristo. Como tal, a sua vida tem uma “única”  finalidade: prolongar a ação de Cristo no mundo de hoje, realizar tudo o que Ele em trinta e três anos de vida não conseguiu fazer.

Cada cristão, se é um membro normal do Corpo de Cristo “sente” dentro de si o impulso da vitalidade de toda a Igreja, da ânsia universal de Cristo pelo Reino. O Espírito não concede repouso a ninguém. Portanto, todo cristão é missionário: e qualquer que seja a ação realizada na sua vida cotidiana, adquiri no seu Espírito uma dimensão universal.

Há um limite porém: também se o seu espírito vive intensamente para a propagação do Reino, o cristão percebe que na prática, boa parte de suas energias é gasta para a sua família, ou sua profissão ou de tantas conveniências do ambiente onde vive.

Em toda época, porém, existiram jovens que sentiram no próprio sangue o impulso da vitalidade da Igreja de uma maneira toda especial. E existem ainda hoje. O impulso criado em cada membro pelo Espírito, repercute-se neles com uma ressonância mais forte: é como um fio de vida que quer irromper, custe o que custar.

Todos o sentem: mas só ao missionário torna-se excepcional e irresistível. O impulso do Espírito aumenta; faz sempre sentir-se com intensidade. Depois de um certo ponto se transforma. É como um clarão; como uma intuição instantânea. Adquire um aspecto preciso, maravilhoso; um convite. Antes apenas perceptível, depois mais forte e insistente.

Um convite a ultrapassar os próprios limites: a colocar-se a serviço do Reino, sem reserva.

Um convite a doar tudo a Cristo: não só o espírito, mas também o corpo, as energias, a vida e o tempo. Ser Cristo de uma maneira total; fazer também o “mesmo trabalho” que Ele fazia, com a exclusão de todas as outras atividades, de todas as outras preocupações. Não dispersar nenhuma energia, viver “só” pelo Reino e para o Plano Universal de Deus Pai, com tudo aquilo que se é, alma e corpo.

Um convite a ser Cristo de maneira total e profunda. Cada cristão é Cristo: mas estes jovens são chamados a sê-lo por um novo título, ainda mais íntimo e mais radical.

Este convite tem uma palavra que o exprime claramente: “A vocação missionária”.

Não é obra dos homens

Nasce assim, não é obra dos homens, mas do Espírito. É um “dom” d’ Ele. O dá a quem quer e como quer. Mas uma coisa é certa: é um dom que concede largamente e não nega nunca a quem o pede. À origem deste convite, para explicar a sua existência e a sua comovente continuidade nas diversas épocas da Igreja, está o Plano de Deus que ama todos os homens e mulheres e quer alcançá-los a todos para que participem da sua família. A explicação última de todo o impulso missionário é sempre o amor do Pai para toda a humanidade. Foi Ele que convidou o Filho, foi Ele que juntamente com o Filho nos enviou o Espírito, o que vitaliza a Igreja e cada membro, é Ele que chama cada um a prolongar de maneira mais plena a vida e ação de Jesus Cristo.

Assim quando o jovem missionário estiver na África ou na Ásia, nele estará Cristo, no sentido pleno e profundo a agir. Ele será o Cristo na África  e o Cristo na Ásia.  O mesmo Espírito de Cristo o impelirá a realizar as mesmas ações que Cristo realizou. Operará de novo, nele pobre missionário, tudo que a dois mil anos atrás operou-se na carne e na vida de Jesus Cristo.

O gesto mais bonito e também o mais revolucionário de Cristo foi este: Ele, Deus, quis deixar sua pátria par vir como simples homem, em nosso meio. É o gesto cativante da encarnação: “Cristo, mesmo sendo Deus, não quis mostra-se como tal, mas ao invés esvaziou-se a si mesmo daquilo que era para parecer um homem como todos os outros homens”.

Por sua disposição admirável, Deus permitiu, ou melhor, quis que o gesto de deixar tudo, para tudo doar, gesto que parecia ser absolutamente reservado a Ele, fosse imitado e condividido.

Um deixar tudo para tudo doar: é o gesto missionário. Cada partida é uma nova encarnação.

Cada partida é um deixar tudo: o ideal de uma própria família, pai, mãe, pátria, o próprio ambiente social, tudo; por fim a própria mentalidade, o modo de sentir, os gostos pessoais. É um desaparecer do próprio mundo, não só geográfico, mas também psicológico. É uma ruptura total com aquilo que se tem, mas sobretudo com o que se é.

Toda partida é um doar-se a uma nova vida: uma nova pátria espera o missionário, uma nova mentalidade.  Um mundo novo que até agora lhe era estranho, mas que agora torna-se o “seu” mundo. Dar-se-á totalmente a esse novo mundo, sem reserva, para recebê-lo, assimilá-lo todo. Tudo no sentido pleno da palavra. Excluído o pecado, o resto entrará nele, formará uma coisa só, uma só personalidade com Ele.

O gesto de um Deus que “se esvazia de tudo o que é” para entrar no meio da humanidade e assumir toda a riqueza humana, pode ser imitado integralmente? Pode se tomar ao pé da letra?

É esta constatação que comove o homem missionário toda vez que reflete sobre a própria realidade, sente-se sempre mais entusiasta do dom recebido.
 

O primeiro rebento

O missionário deixa o seu mundo e assume um outro. Torna-se ele mesmo “um outro”: torna-se um japonês, um indiano, um senegalês... Torna-se um membro autêntico do povo no meio do qual vive.

Este fato nos conduz a constatar uma última realidade do missionário: a mais bonita talvez e a mais entusiasmante. Sabemos que Cristo ainda espera encarnar-se em muitos povos, cujo destino é este: de recebê-lo como fermento da própria história e civilização. Cristo busca um ponto de inserção, um ponto no qual enxertar-se: entre Ele e cada um destes povos...

Dois mil anos atrás Deus queria tornar-se homem: buscou então, uma Virgem chamada Maria, verdadeiro membro da comunidade. Nela se enxertou; nela Deus fez-se homem. Hoje Cristo quer se tornar japonês, indiano, senegalês... Buscou e todo dia  busca um ponto para inserir-se nestes povos. E o encontra nele, o missionário, que se tornou um autêntico representante de Cristo no meio do povo onde vive.

O enxerto acontecerá no missionário: nele Cristo tornar-se-á japonês, indiano, senegalês; Cristo nascerá do missionário. O primeiro rebento da Nova Igreja será ele.

É uma consciência que os missionários sentem no mais profundo de suas almas. Cada um deles, também os mais distantes e os mais dispersos, aos que estão às margens da sociedade, podem dizer: quando cheguei neste país, nesta cidade, Cristo ainda nascera no meio deles: fui eu o primeiro botão deste novo ramo da Igreja, a primeira pedra desta nova construção.

A comunidade cristã de Roma ergue-se sobre o túmulo de Pedro; as comunidades cristãs de centenas de países da África, da Ásia, e das muitas ilhas distantes do Pacífico, erguem-se sobre o túmulo de um humilde missionário. Deus por sua infinita bondade quis que assim fosse.

As palavra de Jesus evidenciam-se todos os dias: “O grão de trigo semeado na terra, se permanece intato não produz nenhum fruto; se ao invés, plantado no solo, morre, deixa tudo o que é, e então torna-se o início fecundo de uma nova vida”.
O grão de trigo é a história do missionário. É a história de um homem como todos os outros, que se deixou levar pelo Espírito de Cristo, até às últimas consequências, sem reserva. Até morrer como Ele para os outros. Para as suas vidas.
 

O que é importante

1. O período de disponibilidade:

Consiste num total silêncio de cada desejo e de cada projeto seu, porquanto santo e bom. Você não deve maravilhar-se, talvez não se encontre neste período que é de pouquíssimos. Pode porém criá-lo, se quiser. Na calma de um retiro espiritual estaria em condições ideais para fazer calar toda voz humana. Pode até dizer: eu não quero nada de quanto me possa vir, sou indiferente a toda e qualquer escolha, não tenho nenhuma escolha, não tenho nenhuma referência: “Escolhe Tu, ó Deus, por mim”. Deixo que Tu queiras, que Tu decidas; estou disposta a fazer o que Tu quiseres:

- disposto a formar uma família, se quiseres;
- disposto a me doar totalmente, se quiseres;
- disposto a deixar tudo para Te seguir;
- disposto a tornar-Te conhecido para quem não Te conhece;
- disposto a servir o Teu Reino, sem meios-termos, se Tu quiseres.

Disposto, disposto, disposto. Nunca se insistirá o suficiente sobre esta fundamental atitude do homem em ralação a Deus. Quando sentir-se em assinar estas “condições” com toda sinceridade, pronto a aceitar as consequências, pode começar a etapa seguinte. Mas absolutamente não pode decidir sobre o seu futuro, se antes não estiver disposto a fazer tudo o que Ele quiser, com a mesma alegria e dedicação.
 

2. Período de espera:

O que fez no seu coração para calar todo o barulho o permitirá de sentí-lo. Nós estamos nesta dolorosa condição: todos os dias sentimos os desejos do mundo e do coração enquanto nos escapa o chamamento de Deus. Não lhe parece justo colocar-se ao menos para esta decisão que toca toda a sua vida, nas condições ideais de ouvir também este chamamento?

Deus tem um plano preciso para você desde “toda a eternidade” e imerso no sangue de Cristo com toda a graça já pronta: está para manifestar a você, se for capaz de escutá-lo. “Senhor, que queres que eu faça? Fala Senhor, que o teu servo escuta!”. Não tenha receio de lhe dirigir constantemente uma oração incômoda, que não tenha conta de seus gostos, de suas preferências, mas que se coloque em contato com as grandes idéias que Deus tem sobre  você. Deus espera grandes coisas de todos nós; somos nós que muitas vezes não entramos no plano de’Ele.
 

3. O período do empenho:

Se pedir a sua luz não nega; se o pedir que lhe mostre o lugar no seu plano, esteja certo que o fará ver claramente. Qualquer que seja a sua escolha, esteja certo que será aquele o “seu” caminho, a razão de ser de toda a sua vida.

Talvez lhe peça muito. É provável. Será o sinal que o estima e conta com você. O seu plano exigirá de você decisão, sacrifício e generosidade: Ele mesmo está disposto a doar-lhe tudo que for necessário, porque não é de seu feitio indicar uma meta sem antes dar os meios para alcançá-la. Deus não pode contradizer-se.

Para frente, então! O lugar que você tem no plano de Deus é “seu pessoal”, insubstituível: ou você o assume ou ninguém o fará, poderá ser para sempre um lugar vago.
 

O rosto escondido do missionário

Vimos quem é o missionário. Então é necessário perguntar-se: o que se esconde sob o rosto do missionário? De onde vem a sua força? Qual o sustentáculo de sua vida? Por quanto cada missionário tenha uma sua fisionomia, é possível individuar alguns traços fundamentais comuns a todos os missionários: são o seu relacionamento com Deus, com os irmãos e com a Igreja.
 

Toda uma vida para Deus

Numa entrevista perguntaram a um missionário:

Para o senhor, quem é, Deus? Que influência tem na sua vida? Ele esquadrinhou o entrevistador da cabeça aos pés, ficou perplexo em enunciar uma coisa tão simples e evidente. Depois respondeu: “Deus... Deus... mas para mim Deus é tudo”.

Para compreender o missionário é preciso partir daqui. Se não se aferra o alcance desta afirmação, corre-se o risco de não se entender nada. Nada no sentido mais absoluto do termo.

Existe um erro muito difundido acerca do missionário: é o acreditar que o sustentáculo de toda a sua vida seja a necessidade de ir de um lado para o outro, o desejo de construir obras: escolas, hospitais, a ambição de fazer e de agir. Esquece-se que este é somente um aspecto secundário de sua vida, que na realidade é muito mais profunda. É comum ouvir comentários que o missionário deixou tudo, renunciou a formar uma família para consagrar-se à ação social, para administrar muito dinheiro e correr o tempo todo sobre uma moto ou dentro de um carro. Nada mais errado. Tudo isso não justificaria a sua renúncia, e a sua figura na evangelização, não seria de fato, necessária.

À base de toda a existência do homem-missionário há um fato muito mais importante, decisivo; há um encontro, um relacionamento pessoal entre ele e o Outro; este “Outro” é Deus. O missionário não é um consagrado às obras; é um consagrado a Deus, a Ele só. Se renunciou a fundir a sua vida com de uma outra pessoa, foi unicamente por isso: para fundir com aquela de Deus.

Como se explica isso? Cada homem a um dado momento de sua existência encontra-se diante de uma encruzilhada: restam-lhe dois caminhos, duas orientações. Ambos conduzem à mesma meta, a Deus, porém, de maneiras diferentes. Há um caminho ordinário, traçado pela natureza e está ao alcance de todos: neste caminho se vai a Deus através das condições naturais de felicidade e do desenvolvimento humano e pode ser alcançado através de uma outra pessoa. É o caminho do matrimônio. Caminho nobre e de alto valor espiritual que constitui para a maioria dos cristãos o caminho normal da santificação.

Mas existe um segundo caminho: um caminho de exceção. Nele se alcança Deus diretamente sem nenhum intermediário, sem passar pelos caminhos naturais, pelas condições de felicidade do desenvolvimento humano. Vais-se a Deus com um impulso, abandonando tudo que não seja Ele. O jovem que se coloca nesse caminho não despreza o outro, pelo contrário, o estima, mas renuncia a ele por quanto bom possa ser. Renuncia-o unicamente porque sente a necessidade de um outro amor, de um amor mais forte. Sente dentro de si exigências divinas que o faz renunciar todas as exigências humanas.

Esta segunda orientação revela-nos o verdadeiro rosto do missionário, aquilo que mais íntimo há nele. Mas o que foi que determinou aquela sua escolha? Como se explica o fato de que a maioria dos homens escolhem o primeiro caminho e ele decididamente orienta-se pelo segundo?

Há uma explicação: fez uma descoberta. Descobriu “quem é Deus”. Enquanto precedentemente era uma realidade abstrata, sem incidência na sua vida, agora tornou-se uma “Pessoa”. “Alguém” que fala, que se vê, que se sente. Parece-lhe de tocá-lo, quase como se toca a uma “pessoa” viva. Nos momentos em que se encontra, assim só, “tu a tu” com Ele, experimenta-se uma realidade tão rica que faz desaparecer todas as outras realidades.

Sente-se pessoalmente amado por Ele; sente-se dirigido por Ele, o Vivente, o Único, o Transcendente, o que está dentro e além da história. Revolve-se à sua pessoa como se fosse a única no mundo.  Chamou-o por nome, com o seu nome. Fez-lhe uma proposta: de viver na intimidade com Ele, de viver exclusivamente com Ele e d’Ele para sempre.

Fascinado, deixou-se seduzir por Deus: respondeu-lhe que sim, que aceitava. É tudo: é o dom do chamamento, é a troca do dom como resposta. Toda a vida do missionário será consequência, ou melhor, a continuidade deste sim. Será um, numa intimidade inexprimível para quem experimenta. É isso a “vocação”: um consagra a própria vida a Deus, de tal maneira que nele não haja ninguém mais senão Deus.
 

A totalidade

Tal consagração a Deus tem duas características: a primeira é a totalidade. O jovem que aceita de seguí-lo experimenta uma necessidade violenta de doar tudo, incondicionalmente, sem meias medidas, sem compromissos, sem saudade.

Tudo isso requer uma fé imbatível em Deus que o quis e o chamou. O missionário dá-se sem reserva: aceita antecipadamente a vontade d’Ele sem se preocupar em saber o que acontecerá. Dá-lhe carta branca, a qual já assinou: aceitará tudo. No fundo é um empenhar tudo o que se é, seguro somente na sua Palavra; é um jogar toda a sua vida, tendo como referência, unicamente a sua fidelidade: risco total, numa segurança total.

Tudo isso requer que se gaste cada instante da vida não para o plano pessoal, mas unicamente para Ele, para o seu plano. É um desmoronar completo de todos os pontos de vista pessoal, da ambição humana, da autopromoção, do progresso, do burguesismo. É um morrer a tudo.

Tudo isso requer renúncia à busca da alegria em tudo que é somente humano: para manter-se numa total e constante disponibilidade a tudo que é divino. É um não querer dividir o próprio coração com nenhuma outra pessoa, em nenhum instante. Deus só: na sua vida não pode haver outro senão Ele.
 

A alegria

A segunda característica da doação a Deus é a alegria. O jovem missionário que disse sim, por toda a sua existência , vive constantemente esta fortíssima impressão: de “ser o escolhido por Deus”. Cada dia em cada instante, quando, no silêncio do seu quarto ou no correr das ações, entra dentro de si mesmo para continuar o diálogo íntimo com aquele que é o seu único motivo de existir. As palavras iniciais são sempre as mesmas, sempre mais ardente.

- “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi...”.
- Sim, recordo-me: tinha dezesseis a nos, vinte anos quando me chamou.
- Quando, Senhor? Quando pensou em mim pela primeira vez e decidiu ligar a minha sorte à sua? Muito antes de seu nascimento: antes mesmo de criar o mundo Eu já pensava em você. Desde que Eu existo, desde de quando sou Deus, desde sempre, desde toda a eternidade que pensei em você e lhe
quis bem de maneira toda particular, diferente. Desde então o vi, o chamei pelo nome; o escolhi; criei-o só para Mim.

Mas por que? Que coisa lhe agradava tanto em mim? Nada: você não existia ainda: não, não é por mérito seu que o escolhi. É porque Eu quis assim, só por isso.

Repete-me ainda mais uma vez Senhor: por que me escolhestes? Para fazer o quê?

Escolhi-o a fim de que vivesse para mim, somente para mim: fiz o seu coração proporcional ao meu, para que vivesse só de mim.

É verdade. O Senhor me basta. Quero que a minha vida seja um testemunho, que só Ele me pode bastar, que se pode viver só d’Ele,

Esta é a vida do missionário: uma vida de alegria interior; serena. Quando o missionário repensa que foi Ele, Deus a chamá-lo, a sua alegria não tem limites; torna-se irresistível, transbordante; deve gritar a todos. Por isso o missionário está sempre contente e é chamado “o homem da alegria”. A mesma totalidade da alegria engrandece: é a alegria da resposta, a alegria de ter deixado tudo por Ele, de ter renunciado a cada coisa e a cada afeto humano para dizer-lhe: “Você é tudo para mim!”.
 

A serviço dos irmãos

A segunda realidade do rosto do missionário é a caridade. É os aspecto mais característico que comumente se lhe atribui: o missionário é a pessoa que ama, que se doa, é alguém que se deixa consumir pelo irmãos e que está somente a serviço deles.

Uma dificuldade: como se explica isto? A segunda realidade não está nitidamente em contraste com a primeira? Prometeu ou não prometeu de viver só para Deus? Decidiu ou não decidiu doar-se exclusivamente a Ele?

Sim, é isso mesmo: o missionário doa-se totalmente a Deus; isto não é contrário à sua vida de todos os dias, antes, a força motriz, é a sua explicação. Só a sua total doação a Deus “explica” a sua total doação aos irmãos... O missionário dou-se a Deus, uniu-se a Ele, vive n’Ele, quase torna-se uma mesma pessoa, então não pode fazer por menos que impregnar-se d’Ele, de seu Espírito. Nos colóquios íntimos e pessoais, Deus lhe transmite o seu pensamento, a sua ânsia, o seu amor e seu desejos.

Aquele Deus que o atraiu a si e que lhe pediu o seu coração e as suas energias, agora o convida a condividir com ele a sua ação redentora... Indica-lhe os irmãos e lhe diz: as energias que me doou gasta-as com os irmãos; num coração cheio de mim, põe também os irmãos, dilata-o quanto é grande o mundo. Ama comigo, com o meu coração, ama como Eu, sem mediada; ama a quem Eu amo, todos. O missionário, o homem de Deus, torna-se, por sua vontade, o homem de todos.

A segunda realidade  do missionário não é senão a consequência e um aspecto da primeira realidade. Muitas vezes a vocação é advertida sobre este segundo aspecto: é uma coisa normal, porque no missionário o amor a Deus e o amor aos irmãos é uma única coisa. Quando o jovem diz que decidiu a querer ser, por toda a sua vida um homem doado, sabe que a cada instante não poderá pensar em si mesmo, sem colocar-se a serviço dos outros. O seu ideal é claro: ser aquele que se doa “por Cristo”.
Como a característica de seu relacionamento com Deus é a totalidade alegre e constante, a característica do seu relacionamento com os irmãos não é interesseira. Diante dos ideais dominantes hoje em dia, ideal burguês, de existência incolor e egoísta, o missionário quer ser um testemunho: que nenhum homem é feito para si mesmo, mas para os outros; que a maior alegria consiste em doar-se não provisória e limitada, mas completamente; só um cristianismo integral que mude o curso da história, vale a pena ser vivido.
 

Parte viva da Igreja

Há uma terceira realidade a se aprofundar para se ter presente o rosto escondido do missionário: é o seu relacionamento com a Igreja.. Pode-se sintetizar tudo em uma expressão: O missionário é uma pessoa que trabalha na Igreja com a mesma paixão com que constrói a própria casa.

O missionário sente que não é um estranho na Igreja: não é um parasita, um aposentado ou muito menos um espectador, mas é parte viva. Toda a sua vida é concebida para a fundação do plano de Deus no mundo: o plano contempla Cristo, a Igreja é Ele: ele, pobre missionário, ao qual a Igreja, isto é, Cristo, confiou uma parte decisiva da sua missão. Deus, num excelente ato de delicadeza, põe em seu coração, grande esperança e projetos estupendos para o seu Reino, para ter depois a alegria de satisfazer-lhe. Quando se recolhe com o seu Deus e descobre os seus planos, alegra-se com a presença do Espírito que anima a Igreja, enche-se de alegria em ver como cada gesto, também o menor, tem um alcance universal, porque é um gesto da Igreja.

É esta a contemplação do missionário: descobrir que Deus desde toda a eternidade pensou nele, o chamou a viver só d’Ele; e lhe deu um lugar em seu plano. Um lugar no qual gastar as energias e dons, até quando Ele quiser.
 

Essa vida não é para mim

A vocação para mim é uma coisa muito grande e eu descubro que sou tão pequeno diante de um trabalho tão árduo. Quanto mais penso, tanto mais descubro a desproporção entre aquele que me chama e aquilo que eu sou. Sou tão fraco! Resistirei? Não gostaria de ser um falido, um fora do lugar. Serei capaz de estar sempre à altura do chamado?

Um pensamento me atormenta: ser missionário sim, mas ser “sacerdote missionário”, não é muito para mim? Muitas vezes me pergunto como fui pensar nisso; compreendo sempre mais que não sou digno.

Aquilo que você pensa e sente é perfeitamente normal no desenvolvimento de uma vocação: Toda “seria vocação” deve passar por esse caminho. Só um inconsciente pode diante de Deus que chama, sentir-se capaz de aceitá-la assim sem pensar, sem medir profundamente a força disponível.

É aqui, todavia, que deve cuidar-se para não cometer um erro: “medir bem a força disponível” não quer dizer contar somente com a “sua” força, mas também e sobretudo, “aquela que Ele lhe dá”. “Não foi você que O escolheu, mas foi Ele que o escolheu”. Pensa que Deus é capaz de fazer as coisas pela metade? Se o chamou é porque já decidiu dar-lhe também a força que o tornaria capaz de dizer sim!

Então, para frente com serenidade: quanto mais se descobre o que é a vocação, tanto mais se sentirá incapaz diante da mesma. Sozinho não irá adiante, porém, com Ele sim. Não levar em conta a sua fraqueza, mas a força d’Ele. Não olhar a si, mas a Ele.

Quanto a não sentir-se “digno” de tornar-se “sacerdote missionário” é um pensamento que não tem motivo de existir. Não é para o nosso bem que dizemos sim, mas para os outros. Não somos sacerdotes para nós mesmos, mas para a Igreja. Para ser “servo” nunca foi exigida nenhuma “dignidade”. Não lhe parece?
 

Como conhecer a vocação missionária?

Se você for sincero deve admitir que pelo menos uma vez na vida, talvez lendo ou meditando, falou consigo mesmo: “estou pronto para me tornar missionário, se Deu me chamar”. Mas como posso saber que Deus verdadeiramente quer isso de mim? É uma boa pergunta. Vamos buscar juntos a resposta.
 

Seis princípios da vocação:

Primeiro princípio

À base de tudo que é vocação, há um grande princípio: quando Deus quer alguma coisa de alguém, dá-lhe certamente os meios para realizá-la, isto é, se Deus decidiu chamar um jovem aos sacerdócio missionário, dar-lhe-á certamente a capacidade necessária, os dons. Deus não se contradiz.
 

Segundo princípio

A primeira coisa a fazer por um jovem que quer descobrir com sinceridade o seu lugar no plano de Deus é esta: averiguar se nele há os dons  ou não. Deste exame pode-se chegar a uma clara indicação:

- se não tem os dons exigidos, certamente não tem também a vocação;
- se se descobre de haver os dons exigidos, nem por isso pode dizer que tenha vocação. A descoberta o levará a constatar uma realidade: de ser o terreno no qual “poderia existir” a semente, de ter em si uma  “possibilidade de vocação”.

Os dons terão assim a capacidade de serem “sinais” que mostram a vontade de Deus. Para mostrar a sua vontade  que é invisível, Deus tem a delicadeza de manifestá-la através de sinais, plenamente controláveis, porque podemos observá-los.

Quais são, portanto, estes “sinais dons” requeridos para ser missionário? Podemos distinguir três:

- físicos
- intelectuais
- morais

a) Dons físico. Para ser missionário não ocorre ser um colosso; é exigido simplesmente uma saúde normal, isto é, uma constituição física capaz de suportar o trabalho ordinário, as normais fadigas de um homem. Hoje em todos os territórios de missão, as condições de saúde melhoraram notavelmente; não só, mas a vastidão das fronteiras missionárias, permite para as destinações, uma escolha dos candidatos, tendo em conta também as suas constituições físicas. É necessário ter uma saúde razoável, isto é, com isenção de graves defeitos físicos, de doenças hereditárias, ou esgotamento crônico.

Isto no que concerne à força do corpo. E no que se refere à força do “bolso?” Aqui não deve haver nenhuma preocupação. Para a entrada num  Instituto Missionário, não se exige nenhuma taxa ou despesa particular, a todos indistintamente pensa a Providência.

b) Qualidades intelectuais. Para ser missionário é necessário pelo menos uma normal inteligência, isto é, uma capacidade que permita aplicar-se aos cursos regulares de formação missionária e à aprendizagem das línguas e que seja possível uma adaptação à mentalidade do novo povo, no meio do qual o missionário desenvolverá o seu trabalho.

Nas destinações, logicamente serão levados em conta as atitudes e inclinações individuais de cada elemento, de maneira tal que seja colocado em condições de servir ao máximo o Reino e de empenhar plenamente a própria capacidade.

c) Qualidades morais.

A vida da graça: Quem ordinariamente não é capaz de viver em estado de graça, quem não consegue viver uma vida de oração, quem não sabe dominar suas paixões, não é chamado a ser missionário.

É bom recordar aqui o juízo de um esperto conhecedor de almas: “um indivíduo normalmente constituído é por si mesmo apto a praticar a pobreza, a castidade, a obediência e também a vida de comunidade. O não ser apto à castidade, provém sobretudo, de doenças, anomalias, deficiências e não da violência do instinto. O mesmo se diga da obediência: caracteres mais forte, mais ricos de vitalidade pessoal, não são por isso os menos aptos à vida religiosa. Nem muito menos à vida missionária; pelo contrário!”.

Uma normal graça implica num jovem uma percepção dos valores: o sentido de Deus, da Igreja, das pessoas... Portanto, requer uma capacidade de sacrifício por estes valores; uma capacidade de abertura, de horizontes, de clareza, de intenção, de operosidade constante, um espírito de serviço e de doação.

Não que se exija daquele que abraça a vida missionária que possua todas estas qualidades ao máximo grau, porém o início de tudo isto é pedido: é uma base sobre a qual o Senhor poderá trabalhar e construir um perfeito apóstolo. É requerido para ser missionário, sobretudo um equilíbrio de temperamento: “bom senso”, “critério”, “bom caráter”. O equilíbrio é uma das qualidades fundamentais, absolutamente indispensável para a vida missionária.

Concluindo: as qualidades máximas para a vida missionária podem simplificar-se numa expressão: a normalidade. Um homem normal, um cristão normal, [é apto a doar-se ao Senhor na vida missionária: é possível que seja chamado. Poderia afirmar-se que muitíssimos jovens têm o germe da vocação missionária.
 

Terceiro princípio

Aposto que neste momento você já se questionou: “Tenho as qualidades?”. A resposta deve ter sido “sim”. Tenho pois a vocação? Não está dito ainda: no momento pode somente concluir que não tem certeza de havê-la: pelo contrário, te a probabilidade de haver em si o germe da vocação. A dar certeza da vocação entra em jogo um elemento indicador, e o mais importante entre os elementos que constituem a vocação. Eis o terceiro princípio: Se Deus chama um jovem, não só dá as qualidades necessárias, mas também lhe faz “sentir”, como estas qualidades foram dadas para uma finalidade precisa e única: o de tornar-se seu colaborador no trabalho missionário. É um juízo que Deus leva o jovem a sentir, um julgamento que é determinante. Enquanto no início, o jovem podia orientar as suas qualidades em qualquer direção, agora não consegue mais ver senão uma perspectiva: uma só orientação lhe parece possível, uma só vida, um só caminho. Aquele que lhe diz: “Vai e vende tudo o que tens e segue-me”.

No fundo, a vocação é esta “orientação”. Deus chama um jovem e o faz mirar lá na direção desejada. O jovem percebe que o seu pensamento está lá, os seus desejos estão lá: julga todas as qualidades como um meio para chegar à meta indicada.

Mas de que modo Deus leva o jovem a adquirir esta maneira de julgar? Através da normal ação da graça, do agir da providência. Quando Deus chama, faz ouvir a sua voz, não aos sentidos, mas à mente e à vontade.

Não há nenhuma diferença na maneira com a qual faz perceber, no caso da vocação, como no caso de qualquer decisão. Como a pouco sentia seu convite a evitar o mal, da mesma forma o convidava a praticar aquele ato de bondade a seu amigo,  assim neste momento poderia lhe fazer “sentir” um outro convite: aquele de seguí-lo, de doar-se totalmente a Ele.

A graça da vocação não é diferente das outras graças: é a mesma graça que entra em função onde um filho de Deus precisa de uma particular assistência. Não é pois, uma intervenção milagrosa ou mística. Não espere nenhuma reação sensível. Pelo contrário, é muito fácil que a sua sensibilidade experimente uma repulsa, quase uma rebelião: tem medo de tudo o que está acontecendo e busca todos os meios para impedir a ação da graça e para sufocar o que Deus lhe faz ouvir. É a eterna a luta que sempre e inevitavelmente vem perturbar a nossa egoísta e natural comodidade. Deus fala à razão e não aos sentidos, e é com razão que o homem dá o seu consentimento a Deus; com a razão e com a vontade.
 

Quarto princípio

Deus se fez ouvir no mais profundo do jovem:  a sua linguagem interior que nenhum outro pode perceber. O jovem diz: “sinto que Deus me chama”. Mas  quem assegura que tudo aquilo que o jovem sente seja verdadeiramente obra de Deus e não seja, ao invés, uma ilusão? Como se pode descobrir a ação de Deus nele?

O caso é delicado, mas tem uma solução: em si a ação da graça é imperceptível exteriormente, porém pode-se verificar a sua presença observando os efeitos que produz no conhecimento e na vontade do jovem: é como julgar uma planta que não se vê, observando o tipo de fruto que se tem nas mãos: se tem uma laranja pode-se deduzir que a origem dela é uma laranjeira.

Na prática: para se descobrir que aquilo que o jovem “ouve” é obra da graça ou da sua fantasia, ocorre observar atentamente os frutos que se tem nas mãos, isto é, a intenção do jovem: por que tomar esta decisão? Quais são os motivos pelos quais as quer? Tudo depende da resposta dele.

- Se os motivos que o jovem apresenta são simplesmente humanos, poderá    deduzir-se que a produzí-lo foi uma causa natural.

- Se pelo contrário, a motivação é sobrenatural, deduzir-se-á que a causa a     produzí-lo foi sobrenatural, a graça interior, a graça da vocação. Uma causa natural não pode produzir um efeito sobrenatural, sem sobra de dúvida.

O exame do fruto, isto é, da “intenção”, é o mais importante no estudo da vocação. Só se o motivo for sobrenatural, pode estar certo que se trata de uma verdadeira vocação.

Naturalmente, os motivos sobrenaturais podem apresentar-se sob vários aspectos, mas todos estão centrados sobre a caridade. Um jovem pode dizer: “Quero me tornar missionário para me doar todo a Deus”, um outro: “para seguir em tudo a Cristo”, “para me colocar a serviço da Igreja”, um outro ainda: “para doar toda a minha vida aos irmãos”.

Juntos a estes motivos sobrenaturais poderão também coexistir motivações simplesmente humanas, mas todas deverão ser dominadas pela caridade sobrenatural.

Concluindo os quatro princípios até agora vistos, pode-se dizer que os “sinais” de vocação são dois:

1. As qualidades (sinal genérico).

2. A reta intenção, que manifesta exteriormente “a graça interior” do (chamado sinal específico dominante).

Se um jovem nota em si os dons e formula a reta intenção, pode estar certo de possuir a vocação.
 

Quinto princípio

A intenção não nasce do improviso. Ninguém se levanta de manhã e diz: “quero ser advogado”, assim ninguém põe na cabeça improvisamente a idéia de se tornar missionário.

Cada intenção vai se formando gradualmente através de um lento procedimento. É uma ação quem orienta o espírito a uma finalidade: a orientação a finalidade é sempre fruto de uma série de ações, de conhecimento e de vontade que se concluem em um preciso ato de vontade, a intenção propriamente dita.

É importante observar, pois, como se forma a intenção de se doar à Vida Missionária: É uma sucessão a  emaranhado de intervenções, antes prevalentemente natural e humano, depois sempre mais exclusivamente divino. Em tudo, tem sempre a mão de Deus que na sua sabedoria dispõe tudo, também os meios inesperados, em favor de quem chama. Tentemos seguí-los:

Primeiro momento:  Uma leitura, um encontro, uma palestra ou um acontecimento qualquer, que para muitos passam inobservados, faz aparecer ao jovem numa luz nuca vista: um ideal de doar-se a Deus, de seguir Jesus Cristo até às últimas consequências, de servir a Igreja, de dedicar a vida a todos os irmãos. Jamais percebera um ideal tão forte e assim tão vivo.

Segundo momento: Repensando dentro de si, o jovem: que bonito doar-se a Deus, viver só d’Ele, para Ele e aos irmãos. Neste ideal perspectiva-se a realização de todas as necessidades fundamentais de amar numa medida sem limites, de doar sua vida ao máximo, de ser útil aos irmãos e ao Plano de Deus no mundo. Começa a experimentar um desejo vago e incerto, uma corrente de amor e simpatia: Queria... Gostaria...

Terceiro momento: Tendo dentro de si esta corrente de amor e de atração, pouco a pouco o jovem vai formulando um julgamento: é possível “para mim” este ideal? Estupefato, com medo, percebe que a resposta é positiva: não sabe explicar como, mas intui que sim; este ideal de doação e de sacrifício é possível a ele, está seguro disso.

Eis o “julgamento” de que a pouco falamos: geralmente o jovem não consegue mais ver qualidades a ele doadas a não ser para realizar este ideal: ser missionário.

Quarto momento: A sua vontade de querer este ideal, passa do simples desejo vago e incerto a uma vontade eficaz. Quero. A intenção, é enfim, delineada.

O exame das intenções, para ver se é “reta”, isto é, se mira de verdade àquilo que é a realidade do missionário, e para ver se é sobrenatural, deve abranger cada um dos quatro momentos, mas deve deter-se sobretudo no último, que é a conclusão dos precedentes.

- Se a intenção responde a estes requisitos;
- se é formada não de sentimentos, mas de razão e vontade;
- se é sobrenatural, isto é, movida prevalentemente por motivos sobrenaturais;
- se é constante, isto é, não momentânea;
- se se faz viva com insistência, então tornar-se-á um “sinal” claríssimo, determinante: há vocação, Deus mostrou a evidência de sua vontade.
 

Sexto princípio

O que devo fazer? Se quer encontrar com sinceridade o lugar que Deus lhe mostrou no seu Plano deve:

1. Perguntar-se: tenho as qualidades requeridas para a vida missionária?

2. Se se apercebe de ter as qualidades, deve ver se você tem em si o “sinal determinante”, sito é, do julgamento que a graça emite a quem é chamado e a orientação que modifica a sua mente e a sua vontade. Este buscar em si é uma ação difícil e delicada, é absolutamente necessário que se “ponha a escuta”. Sabe muito bem que o trabalho da graça não é violento, mas gradual e progressivo; não é barulhento: poderá sentí-lo só no silêncio que você criou dentro de si. Na proporção de desapego de tudo que divide o seu coração, será capaz de perceber a graça da vocação em si mesmo. Deus vem, desperta o nosso espírito, chama: se a voz não é ouvida, passa adiante. E pode acontecer que não retorne mais.

3. Um retiro, um encontro podem ser uma ajuda indispensável para se “colocar na escuta”. Se repensando todos os dons e as qualidades que Deus deu a todos, o complexo da graça com a qual o favoreceu em toda a sua vida, seguindo-o passo a passo através das circunstâncias mais diversas, pode concluir que todos estes “sinais” lhe indicam que Ele o quer. Este julgamento não é seu, mas d’Ele, é obra d’Ele. Se o seguir não errará.

4. A completar um julgamento e a emitir um ato de vontade, isto é, a intenção, é você somente. Mas para evitar um erro fácil, é necessário recorrer à  colaboração de um bom diretor espiritual, o qual deve ter seguido os vários momentos do trabalho da Graça, lhe seja de ajuda para julgar exatamente a intenção e lhe seja de apoio a fim de que possa realizar com firmeza a decisão tomada.
 

A “crise”

A passagem obrigatória de toda verdadeira vocação.

Toda verdadeira vocação incorre inevitavelmente em dois perigos:

O primeiro perigo está na possibilidade de que na origem da vocação, junto às motivações sobrenaturais, se encontrem presentes também “outras” menos importantes: o amor próprio é por demais habilidoso, para infiltrar em tudo que se possa pretender chamar de amor a Deus e aos irmãos. É ingênuo crer que os próprios desejos de “salvar as almas” sejam firmes: freqüentemente podem ser motivados por mais de um sentimento natural, em busca de uma saída para o sucesso do que por um sentimento sobrenatural de verdadeiro interesse e paixão pelo “Reino de Deus”. O egoísmo, infelizmente, tenta tornar-se em nós a raiz e a origem de tudo.

Um sinal deste perigo encontra-se na manifestação de um entusiasmo excessivamente fácil e sentimental, no uso freqüente e muito ouvido de “bonitas expressões” tais como: “sinto que sou todo Seu”; “a minha vida é toda Sua”; “quero doá-la ao máximo”. Tudo isso é um bem, mas não constitui a vocação propriamente dita. É só uma aproximação, um primeiro contato. A vocação é alguma coisa imensamente maior.

Há um segundo perigo: é a convicção mais ou menos expressa de poder realizar a vocação contando prevalentemente com as próprias forças. Teoricamente ninguém ousa sustentar tal afirmação, mas na prática é um perigo comum.

A vocação é de fato sobrenatural: Todavia, “cada” chamado cede à tentação de afrontá-la como qualquer fato simplesmente humano: Como o “seus” espírito de sacrifício,  como a “sua” generosidade, como a “sua” inteligência, como as “suas” numerosas idéias, com a “sua” vontade.

É importante notar a segurança de si por parte de muitos chamados: ouvindo repetir sempre que a vida missionária é dura, é exigente e empenhativa, acabam-se por convencer-se de serem mesmo qualquer coisa de extraordinário, um homem excepcional, quase um herói. Diante das dificuldades da vida que o espera, o jovem descobre que pode oferecer uma boa garantia: tem uma fonte de carga de entusiasmo, capacidade de empenho, sabe aproveitar as próprias forças, conhece profundamente suas reservas imensas de decisão e de sacrifícios. Está seguro, não teme a vida que deverá enfrentar.
 

Deus não se faz cúmplice de nossas ilusões

Os dois  perigos tornam-se arriscadíssimos: são “ilusões”. Humanamente não há escapatória: se fosse o homem o senhor da vocação, certamente não saberia encontrar diante dela uma solução eficaz. Tentaria potenciar o entusiasmo do jovem, a sua visão serena e otimista, a segurança de suas forças, de tal modo, que não faria outra coisa do que alimentar as ilusões.

Mas a vocação está nas mãos de Deus. É tudo obra d’Ele. Deus não se faz cúmplice de nossas ilusões, pelo contrário,  tem um estilo todo seu de se comportar diante delas, não as favorece, mas as trunca.

Deus esclarece as posições e da à vida do chamo a sua verdadeira perspectiva. De que maneira?

1. Tudo aquilo que é fruto de um superficial sentimentalismo, tudo o que é “montagem” desaparece. Os bonitos jogos de palavras, o “sinto que sou todo seu” e outras semelhantes, serão passados pelo crivo e desmantelados um a um como toda a vã complacência que levam em si. Pouco a pouco os sentimentos simplesmente naturais não se sustentam mais: o que tomou a dianteira sobre as bonitas aparências, agora se mostram insuficientes para sustentar o espírito do jovem

Delineia-se assim a primeira finalidade que Deus confia à “crise” da vocação: quer purificá-la, libertá-la de tantas escórias de amor próprio e satisfação pessoal.

Deus via profundamente em seu coração: via que também para você que realizava um ideal que lhe parecia sublime e o atraía, bruscamente com mão decisiva, quis lhe recordar que é por Ele que se deve arder de desejo de salvar os homens: por Ele só, não por você. Dizendo sim ao seu chamado, humanamente falando, não tira nenhum proveito, não deve se iludir de poder ganhar alguma coisa; não esperar nada, propriamente nada. Você quer dizer sim a Ele, não porque pessoalmente tenha satisfação, mas para que seja Ele a ter satisfação.
 

2. Contra o segundo perigo da vocação, segurança em si mesmo, Deus age de maneira ainda mais forte.

Em vez de amenizar a realidade da vida de doação total, Deus a apresenta ao jovem em toda a sua “crueza”, com todas as suas exigências concretas e inexoráveis. Deus faz questão de que o seu chamado seja algo de sobrenatural: quer que o jovem perceba que não é algo de normal, de “lógico” para um homem. Diante disso, o jovem deve sentir-se violentamente levado a escutar sua natureza. Dirá não; rebelar-se-á. A aceitação da vocação missionária deve aparecer a seus olhos como uma loucura, um salto no escuro, “um passo que dá medo”, como costumam dizer os jovens.

Para a realização desse ideal, ao invés de mirar sobre o entusiasmo e sobre a vontade humana do jovem, Deus exige uma declaração de sua incapacidade. A vocação é um dom gratuito e como tal deve aparecer. Também sua realização de cada dia é um dom de Deus: a gratuidade deve demonstrar-se não menos evidente. Todos os pretextos humanos devem desaparecer. Segurança de si, da própria inteligência e da força de vontade, do próprio espírito de sacrifício: mesmo aquele que o jovem acreditava ser o seu ponto de apoio seguro agora desmorona; por isso sente-se aturdido.

Tem a tremenda impressão de um vazio que se abre a seus pés: como o alpinista que vê esmigalhar nas mãos a rocha em que apegava.

Perdida a segurança em sua força, o jovem agarrar-se-á desesperadamente a Deus: e sentirá que só Ele é capaz de sustentá-lo. Eis a segunda finalidade da crise da vocação.

(autor: Darci)
 
 

Um Diário (blog) pra valer... Minhas Experiências com "a Verdade"...

... Mal comecei a primeira página, conflitos eclodiram em Bombaim e obrigaram-me a interromper o trabalho. Os acontecimentos que viriam a seguir levaram-me a prisão em Yeravda.

Um de meus companheiros de cela, o advogado Jeramdas, pediu-me que largasse tudo o que estava fazendo para escrever minha autobiografia. Disse-lhe que havia planejado um programa de estudos, e que não poderia pensar em mais nada até que o completasse. Caso cumprisse toda a pena em Yeravda, teria concluído a autobiografia, mas fui solto um ano antes do previsto. Swami Anand agora me pede insistentemente que a termine.
Visto que meu livro sobre a história do satyagraha (satya=verdade + agraha=firmeza) na África do Sul está pronto, penso em publicar a autobiografia no periódicoNavajivan.

Swami Anand quer que a escreva em forma de livro, mas não tenho tempo. Posso somente terminar um capítulo por semana e, como tenho de preparar algo para o Navajivan toda semana, por que não minha autobiografia?
Então, cá estou eu trabalhando neste projeto.

Mas um amigo religioso questionou-me a respeito:

- 0 que o leva a embarcar nessa aventura? - perguntou-me. - Escrever autobiografias éuma prática típica do Ocidente. Não conheço ninguém no Oriente que as tivesse escrito, com exceção dos que se ocidentalizaram. Além do mais, sobre o que escreveria? Suponha que amanhã o senhor rejeite os princípios que o orientam hoje, ou então que suas intenções presentes não sejam as mesmas no futuro. Não é provável que as pessoas que se espelham em sua palavra, escrita ou falada, se sintam desorientadas? Não acha que é melhor não escrever nada parecido neste momento?

A argumentação de meu amigo causou-me impacto.
Não é minha intenção escrever propriamente uma autobiografia.

Apenas desejo contar a história de minhas várias experiências com a verdade.

Uma vez que minha vida está repleta delas, pode-se dizer que a história tomará a forma autobiográfica. Mas nada disso importa, contanto que cada página do livro relate apenas essas experiências.

Embora possa parecer um auto-elogio, acredito que um relato pessoal delas será benéfico ao leitor. Minha atuação no campo político é do conhecimento de todos, não apenas na índia, mas de uma certa maneira no mundo "civilizado". Não a considero de grande valor, e muito menos o título de Mahatma (mahant=grande + atman=alma), que me foi concedido.
Na verdade, o título causou-me muito sofrimento e não consigo lembrar um único momento em que tenha me agradado. Contudo, acredito que terei imenso prazer em narrar minhas experiências no campo espiritual, que são do meu conhecimento apenas e de cuja força me alimento Para conseguir trabalhar na política.

Se sua natureza for verdadeiramente espiritual, não há espaço para o auto-elogio. Elas apenas tornam-me mais humilde. Quanto mais reflito sobre o passado, mais minhas limitações se fazem presentes.

0 que pretendo alcançar, o que na verdade venho tentando ansiosamente alcançar nos últimos trinta anos, é a auto-realização, encontrar-me frente a frente com Deus, atingir o moksha (liberação). Minha vida e meu ser caminham em função desse objetivo.

Tudo o que faço, que falo e escrevo, todas as minhas incursões no campo político, têm essa finalidade. Como sempre acreditei que aquilo que é possível para mim é possível para todos, minhas experiências não acontecem às escondidas e sim abertamente, o que em nada diminui o seu valor espiritual.

Há coisas a nosso respeito que só Deus e nós mesmos sabemos. São fatos que não revelamos a ninguém. Os que narrarei aqui não são dessa natureza. São acima de tudo vivências de natureza espiritual e também moral, pois a essência da religião é a moralidade.

Incluirei nesta história somente os aspectos da religião que possam ser compreendidos por todos, inclusive crianças e idosos. Creio que ao narrar minhas vivências com o espírito desprendido e humilde, as pessoas poderão encontrar subsídios para seguir seu caminho por meio das suas próprias trajetórias. Com isso, não estou absolutamente insinuando que minhas experiências sejam perfeitas. Dispenso-lhes a mesma importância que um cientista, cujos experimentos são conduzidos com
precisão, intuição e minúcia, mas que jamais chega a um resultado absoluto e sempre mantém a cabeça aberta. Passei por vários estágios de introspecção, vasculhei meu interior e analisei cada aspecto psicológico das situações. Mesmo assim, estou longe de qualquer conclusão final ou infalível a respeito do que vivi.

Esses experimentos me parecem absolutamente corretos e por enquanto definitivos. Do contrário, não basearia minhas ações neles. No processo de aceitação ou rejeição de cada estágio de minhas experiências, tenho agido com responsabilidade. À medida que minhas ações satisfizerem razão e coração, irei, sem dúvida, manter-me fiel às minhas conclusões.

Se fosse discutir apenas princípios acadêmicos, certamente não estaria tentando escrever uma autobiografia. Como meu objetivo é fazer um relato das aplicações práticas desses princípios, dei-lhes o título de A História de Minhas Experiências com a Verdade. É claro que aqui estarão incluídos meus experimentos com a não-violência, o celibato e outros princípios de conduta considerados distintos da verdade.

Para mim, a verdade é um princípio soberano, que engloba vários outros. Ela não é apenas a autenticidade da palavra, mas também a do pensamento. Não é a verdade relativa de nossa percepção, mas a Absoluta, o Princípio Eterno, que éDeus. Há inúmeras definições de Deus, porque são inúmeras as Suas manifestações, que inundam meu ser de admiração e respeito e, ao mesmo tempo, me atordoam. Venero a Deus como sendo a Verdade única.

Ainda não O encontrei, mas continuo a procurá-Lo. Sinto-me preparado para sacrificar o que tenho de mais valioso em função dessa busca. Se for necessário, espero estar pronto para oferecer até minha própria vida.
Mas, enquanto não assimilar a Verdade Absoluta, devo ater-me à relativa, da forma como a concebo, para que me ilumine e proteja.
Embora o caminho seja penoso e arriscado, para mim tem sido o mais fácil e rápido de seguir. Até mesmo meus desatinos, grandes como os Himalaias, parecem-me insignificantes, pois tenho me mantido resoluto no caminho. Esse caminho impediu-me de entrar em desespero e ajudou-me a ir de encontro à minha luz.

Nessa jornada, tive pequenos vislumbres da Verdade Absoluta, de Deus, e a cada dia cresce a minha convicção de que só Ele é real e tudo mais é irreal. Para os que se interessarem, exponho aqui como cresceu em mim essa convicção. Outra certeza inabalável é que o que e possível para mim o é até para uma criança, e tenho motivos para fazer tal afirmação. Os instrumentos de busca da verdade são ao mesmo tempo simples e complexos. Podem parecer impossíveis para uma pessoa orgulhosa,
mas acessíveis a uma criança inocente. Aquele que busca a verdade deve, antes de tudo, ser tão humilde quanto o pó. 0 mundo pisa sobre o pó, mas quem persegue a verdade deve ser tão humilde que mesmo o pó poderia pisá-lo. Somente assim, vislumbraremos a verdade. 0 diálogo entre Vasishtha e Vishvamitra ilustra maravilhosamente essa experiência, assim como os preceitos do cristianismo e do islamismo.

Se o que escrevo nestas páginas parecer vaidade aos olhos e sentimentos do leitor, minha busca deverá ser então questionada, e meus vislumbres terão sido apenas uma miragem. A verdade deve prevalecer sempre, mesmo que para isso centenas de pessoas tenham de morrer. Portanto, ao julgar as palavras de um simples mortal como eu, não deixem que a verdade se enfraqueça nem por um milésimo de segundo.

Rezo para que ninguém considere definitivas as opiniões deste livro. As experiências aqui descritas devem ser tomadas apenas como ilustrações pessoais, da mesma forma que todos os indivíduos trazem em si vivências próprias, segundo sua inclinação e capacidade. Espero que, nesse contexto, minhas ilustrações possam ser úteis. Não esconderei ou omitirei qualquer coisa que deva ser dita a meu respeito, mesmo as ruins.

Pretendo revelar ao leitor todos os meus defeitos e erros. O propósito maior é narrar o que vivi à luz do satyagraha e não vangloriar-me dos meus feitos. Na minha autocrítica, tentarei ser tão duro quanto a verdade, que é o que espero dos outros. Vendo-me por esse ângulo devo exclamar, juntamente com Surdas:

Existirá um ser tão pérfido e desprezível quanto eu? De tão descrente de tudo, abandonei meu Criador!

É muito doloroso e torturante perceber-me tão distante do Criador, aquele que é meu Pai e governa cada sopro de minha vida. Sei muito bem que são os meus sentimentos primários, que carrego dentro de mim, que me mantêm tão afastado d'Ele.

(autor: M. K. Gandhi)