PROPOSTAS  PARA EVANGELIZAÇÃO
 

1. Que tipo de formação?

Antes de mais a formação do padre: Formação humana-afetiva, espiritual, teológica, social, política, administrativa, mídia e antropológica.  Deve ser um experto em relações humanas. Sem essa formação, ele pode ser um poço de sabedoria, mas só para ele e mais ninguém. Além do mais, ele deve ser o homem que caminha junto e não que arrasta. Por causa da pressa o “macaco saiu feio”. A pressa em alcançar resultados pode levá-lo a agir a partir de si esquecendo a história dos destinatários. Nesse caso, o Evangelho se torna um verniz, isto é, superficial, porque não atinge os valores presentes em toda e qualquer comunidade humana. A “Semente do Verbo” já está presente, antes mesmo, do missionário chegar. Esse tipo de evangelização cria autômatos, que repete sempre o que o missionário manda. Ele simplesmente assimilou o conteúdo, mas não o encarnou. Por isso, a formação dos padres e missionários não pode ser somente na superfície. Quando isso acontece, corre-se o risco, de se cair num ativismo pastoral, sem antes, fazer uma reflexão teológica da história natural dos destinatários.

Em seguida se deve pensar na formação dos agentes de pastoral. Uma formação que o leve a ser evangelizador e não a boca do padre nas comunidades. Esse é um dos problemas graves da formação dos chamados catequistas. Chamados, porque, na realidade não os são. A formação deles não passa de informações catequéticas que eles devem passar aos catequizandos. A formação deles não pode ser somente de disciplinas oficiais, tais como: Sagrada Escritura, Teologia, Moral, Direito Canônico, Liturgia, História da Igreja, Patrologia etc. Todas essas disciplinas devem ser inculturada na história deles, isto é, nos valores culturais existentes. São os leigos os evangelizadores e não os missionários. A primeira preocupação do missionário deve ser aquela de Jesus: de formar os apóstolos. O missionário nem funda a Igreja, apenas põe os fundamentos, quem a funda são os apóstolos locais. A mesma Igreja de Cristo, mas do jeito deles.
 

2. Qual catequese?

Uma catequese cristológica, bíblica e eclesiológica. Ela não pode ser um transplante da nossa comunidade de origem. Ela deve ser, sobretudo, encarnada e inculturada na vida e nas situações das comunidades. Ela deve criar impacto no comportamento e na atitude das pessoas. Uma catequese que não promove a pessoa humana em todas as suas dimensões: política, social, moral, econômica, religiosa e livremente, não é catequese. É apenas memorização de conceitos doutrinais. Não deve existir diploma de conclusão de curso de catequese. Como, por exemplo: o adolescente não vê a hora de terminar a catequese crismal, isto é, concluir o curso e dizer: adeus Igreja! Só retorno aqui, se eu cair na besteira de casar.
 

Que método usar?

Penso que a melhor metodologia seja aquela de Cristo e dos Apóstolos. Em todo caso, deve ser um método que leve o catequizando a confrontar a sua maneira de ser e de se comportar com o Evangelho. Não é o padre ou missionário que deve dizer o que está certo ou errado, mas a Palavra de Deus. O missionário correria o risco de propor o seu esquema cultural e eclesial. A catequese deve ser inculturada, mas também os valores culturais devem ser evangelizados. Se assim não for, o evangelizado acrescenta mais uma religião sobre aquela que ele já tem. “Quanto mais religião tiver melhor, assim a gente está mais protegido”. A Palavra de Deus não pode ser anunciada sobre o nada. Por isso, se deve descobrir os valores existentes na cultura dos destinatários, no ontem e no hoje deles.
 

E como fazer isso?

O padre quando chega num lugar novo, numa aldeia, por exemplo, a sua primeira preocupação é encontrar recursos para construir salas de catequese e ambiente para reuniões. Tudo errado. A primeira coisa a fazer é descobrir onde eles naturalmente se reúnem. Ali é o lugar da catequese. No inicio uma catequese formal, num lugar formal, não conduz a lugar algum. No lugar de encontro a conversa rola solta, isto é, todos se sentem livres para perguntar ou para emitir a sua opinião. Poderia ser sob um pé de manga, sentado no trapiche... etc. Se por acaso a catequese fosse dada na Igreja,  deve-se deixar o espaço, fora da Igreja, no ambiente deles para tudo ser clarificado. Trabalhando assim, o povo sente que o padre é um deles. Quando um deles vai na casa do padre, nunca levá-lo pró escritório, e colocá-lo sentado diante de você. Ali você é chefe e ele não se sente a vontade. Leve-o para um lugar descontraído. Coloque dois banquinhos na varanda e tudo vai dar certo. Ele vai embora contente e você também. E Jesus mais ainda. Vamos acabar com a formalidade.

À medida que o Evangelho vai penetrando em suas veias, eles vão descobrindo que é necessário construir alguma coisa para servir a comunidade. Eles sentirão a necessidade de construir escolas, ambulatórios, sala de formação para as mulheres, ambientes para recreação... etc. São Eles que sabem o que é necessário para a comunidade e não o padre.
 

3. Qual o projeto Pastoral?

“Polenta de um dia só não engorda cachorro”. Queremos dar tudo e de uma vez só, isto é, empanturrar o fulano de necessidades, sem lhe deixar espaços para escolher qual é a mais imediata. Nós partimos sempre de um plano pré-fabricado e impomos o mesmo aos destinatários. Infelizmente partimos sempre das nossas necessidades e não das deles.

Um plano de pastoral Diocesano deve partir das necessidades de toda a Diocese, e não de quatro expertos que pensam de dominar o Espírito Santo. Antes é preciso ouvir o que o Espírito fala através dos outros.

Hoje existem tantas pastorais sobrepostas que o padre passa todo o seu tempo fazendo reuniões e não lhe sobra tempo para formar os evangelizadores, para estar mais com a comunidade. É um corre, corre que não dá tempo nem para respirar e para refletir no que se está fazendo. O problema é que muitas vezes falamos de tantas coisas nessas reuniões e o Espírito Santo fica calado porque não lhe damos chance para se manifestar. Isso acontece muito nos encontros de diálogo inter-religioso e ecumênico.

Lendo planos pastorais de várias Dioceses, percebe-se que todos eles têm um tempo para ser concluído. O tempo de Deus não coincide com o nosso. E muito menos o tempo do povo é o nosso. Não devemos arrastar o povo e sim acompanhá-lo na sua caminhada.

Por outro lado, devemos estar atentos para percebermos até onde eles chegaram e a partir de onde se encontram, darmos salto de qualidade, isto é, não ficarmos parados no mesmo lugar, repetindo sempre as mesmas coisas.

Uma vez detectadas as necessidades pastorais, cabe ao padre formar os seus agentes: dar-lhes conteúdos, metodologia de trabalho, sobretudo, dar-lhes uma mística da pastoral, para que eles não caiam num ativismo materialista. Os agentes de pastoral não são membros de ongs; mas membros da Igreja que perpetuam o agir de Cristo em todos os lugares e em todos os tempos.

O que acontece quando não existe uma mística na pastoral, como por exemplo, na pastoral da saúde. O agente vê somente a doença, mas não o doente. Na pastoral da terra, procura terra para o homem sem terra, mas se esquece do homem, isto é, de prepará-lo para usar a terra, melhor ainda, para ser dono de seu nariz, para ser o protagonista de sua própria história e da história do céu e da terra. Uma pastoral sem espiritualidade está fada a criar ideologia que mais cedo ou mais tarde morrerá com ele ou com os seus sectários. O Espírito Santo é o protagonista e alma de todo plano de pastoral que se presa. É o Evangelho o elemento de transformação e não o padre. O padre é apenas instrumento, por onde passa o Espírito Santo, se ele o deixar.

Outro ponto importante num plano de pastoral, é o fator econômico, principalmente em lugares pobres. Quando o padre tem fácil acesso a financiamento, ele queima as etapas da evangelização, fazendo tudo no lugar dos agentes de  pastoral, ou fazendo deles meros executores de obras. O povo fica até grato ao missionário, mas não sente a obra como sua. Por isso, não se interessa por Ela. Quando o padre aglutina a força da comunidade, cada um se sente parte da construção; cada tijolo ou material, é o esforço de todos. Uma pastoral fundamentada no dinheiro só atinge os beneficiados e termina onde acaba o dinheiro. Vamos tomar cuidado com a bíblia verde, isto é, a Bíblia feita de dólares. Só devemos ajudar quando se esgotar todos os recursos locais. Quando uma pessoa tem fome ou está doente, precisamos ajudá-la, mas não podemos parar por aí. Um plano de pastoral deve abranger o homem todo e todo homem. Não somos chamados a arrastar, mas apontar um caminho.
 

4. Que dimensão antropológica e eclesial?

O padre muitas vezes enxerga no homem só o espírito e esquece que ele tem um corpo e uma psique. Um espírito sem corpo não faz parte da Igreja que é feita de pessoas. “Se eu vou ensinar matemática pro Joãozinho, supõe-se que eu saiba matemática”, mas para que o Joãozinho aprenda a disciplina eu preciso conhecê-lo. Por isso é importante o padre saber como se entra na alma da pessoa e da sua comunidade. O que se faz a uma pessoa atinge toda a comunidade. Os princípios da psicologia, da sociologia, da etnologia, da pedagogia, da ética, da filosofia, são os mesmos em todo o mundo, mas os povos são diferentes; por isso, os medicamentos também são diferentes. Daí a necessidade de o padre conhecer profundamente a alma da sua comunidade, a linguagem dela. Sem esse conhecimento, o padre fala bonito, mas não fez mais que um buraco na água. Não adianta ele se acostar a algum doutor e procurar saber se ele entendeu. Pergunta à criança: se ela entendeu, todo mundo entendeu. Se se conhece o homem, podemos nos aproximar dele sem medir a palavra, porque haverá entre os dois uma confiança recíproca. Para se falar a linguagem de Deus aos homens é necessário entender a linguagem dos homens. Portanto, a Igreja contempla a Deus, para contemplar os homens com o olhar de Deus e consequentemente agir como Deus age. Por isso, é bom que o padre antes de falar de Deus aos homens, fale primeiro a Deus dos homens.

A antropologia nos ajudará a descobrir o que aquele povo pensa de Deus, qual a idéia que ele tem de Deus: um Deus bom ou um Deus fiscal; um Deus perto ou distante deles; um Deus Pai ou um Deus padrasto. Eles sabem que Deus existe, mas que idéia tem dele? Que idéia eles tem do pecado? O mal que existe no mundo é culpa de quem? Um não conhecimento desses elementos poderá nos levar a implantar uma Igreja resignada. Não raro, a gente ouve pessoas dizerem, diante de uma situação difícil: “É a vontade de Deus, o que a gente pode fazer!” Esse tipo de Igreja passiva, não é a Igreja do Deus de Jesus Cristo. Por isso, é necessário antes formar o homem na ótica de Jesus Cristo e só depois torná-lo Igreja, isto é, batizá-lo.
 

5. Qual Igreja?

A Igreja de Jesus Cristo, aquela dos Atos dos Apóstolos. É sim. Nos últimos tempos apareceram muitos conceitos de Igreja que se parece muito pouco ou quase nada com aquela de Jesus Cristo. Se por um lado existe o perigo de formar uma Igreja feita só de espírito, por outro, e não menos perigosa o de formar uma Igreja feita só de corpo, ou pior ainda, uma Igreja acéfala, que olha somente para a barriga do homem. Uma Igreja ideológica. Quem discordar de alguma coisa está fora dela. A Igreja é una na pluralidade. Por isso é corpo, feita de homens diferentes. É isso que torna rica a Igreja. A Igreja é como rio que, por acaso,começa em Roma e atravessa o mundo todo, mas como o rio que percorrendo o mundo vai adquirindo a cor da terra do lugar que ele percorre, a fauna e a flora, assim também a Igreja de Jesus Cristo vai adquirindo o jeito do povo: as suas características, os seus valores culturais por onde passa. É a mesma Igreja, só que com jeito diferente.
 

Que estilo de Paróquia?

Certamente não centralizada. É necessário a descentralização das atividades do padre na Paróquia ou missão. É comum a gente ver padres que vai celebrar a Missa numa paróquia chegar em cima da hora e sair dez minutos antes de terminar. O povo só conhece o padre de longe. O padre precisa ir à comunidade fora do dia da Missa para atender o povo lá no local. Seria bom que ele ficasse lá o dia todo, visitando escolas, centro de saúde, esportivos, casa de comércio, por que não? Também os comerciantes precisam do padre. Dedicar a metade da semana à Matriz já é suficiente.
Todavia, para isso é necessário formar os colaboradores, ou melhor, os leigos para que eles assumam com competência aquilo que lhes é próprio. Muitas vezes a falta de tempo do padre é exatamente porque ele se ocupa de trabalho que não lhe diz respeito. Por que deve haver missa todos os dias na Matriz? Se as capelas fazem a celebração, por que não na Matriz?

Contudo, é bom que se reserve algumas celebrações na Matriz onde todas as comunidades possam participar, principalmente nos tempos fortes, tais como: Natal, Páscoa e a festa do padroeiro. Assim se mantém a unidade eclesial. Todas as comunidades devem se sentir povo de uma mesma paróquia.
 

Pe. Darci Augusto Alves – P.I.M.E.
darci42@libero.it