Experiência de animação vocacional  Brasil Sul  

Olá amigos, sou Pe. Darci Augusto Alves, cinqüenta e nove anos, filho de Joaquim Augusto Alves (já falecido) e Leonidia Delage Alves, nascido em Chácara, pequena cidade do Estado de Minas Gerais. Lá nasci e me criei no meio de uma natureza exuberante, onde cada coisa fala de Deus, do regato de água cristalina às pessoas que dele se saciam. Uma natureza simples que me levou através da beleza visível, descobrir o essencial da vida.
 

Minha vocação

Minha vocação nasceu desse ambiente religioso, no qual nasci e me criei. Tive muitas dificuldades em ser aceito no seminário, porque não havia concluído o curso primário, e nos seminários, inclusive o do P.I.M.E., só eram aceitos adolescentes com o curso primário completo. Essa situação retardou o inicio de minha formação. Por causa da minha idade, não me aceitaram como candidato ao sacerdócio, mas como irmão cooperador. Era esse o nome que se dava naquele tempo.

Isso tudo aconteceu no ano de 1962,quando encontrei o Pe. Francisco Fantin, que já me conhecia, e me convidou para ser irmão missionário. Eu nem sabia direito qual era a missão do irmão, mas aceitei logo. Foi como se o céu se abrisse aos meus pés. E assim, no dia 22 de abril de  1962, ingressei-me no Seminário Nossa Senhora de Fátima , na  cidade de Porecatu, estado do Paraná.

Não foi fácil,   aos 19 anos começar uma vida totalmente diferente. Acostumado no meio dos cafezais e algodoais, livre como um pássaro, sem ninguém   que me desse ordem, submeter-me a uma vida de disciplina e de horários; foi uma virada radical. Houve momentos que cheguei a me desesperar, mas o brio do caipira falou mais alto. Com que cara eu chegaria na minha casa? Como iria enfrentar a minha comunidade? Com a força de Deus e a ajuda dos formadores fui tomando consciência do que Deus queria da minha vida.  

Fiz todos os estudos regulares, formei-me em Pedagogia e trabalhei em nossos colégios em São Paulo e Assis até 1974. Em 1975 fui destinado à Prelazia de Macapá e foi lá, no meio de um povo simples, que Deus me acordou para a "vocação sacerdotal". Pedi ao Superior Geral se me aceitava como candidato ao sacerdócio; e uma vez aceito, retornei ao Sul do Brasil para cursar Teologia. Terminado o curso, fui ordenado em 1980, pelo Papa João Paulo II, na sua primeira visita ao Brasil. Em toda essa peripécia formativa devo agradecer a todos os padres e irmãos que direta ou indiretamente, incidiram na minha formação. Um obrigado bem grande a todos eles.

 

O aperitivo da minha experiência missionária

Eu tive a sorte de conviver   com muitos missionários que trabalharam na China e na Birmânia.   A presença e a paixão deles pela missão me influenciou   muito. Por isso pedi para ir às missões além fronteiras.   A Direção Geral me destinou ao Amapá, mais precisamente   na Paróquia da Ilhas, na foz do Rio Amazonas. "Para quem queria uma  padaria, ganhar uma bala já satisfaz". Lá me veio à  memória toda a minha infância, isto é, o retorno no meio  da natureza e da gente simples, sem muita exigência para viver, mas  necessitados de muita coisa para viver dignamente como filhos de Deus. Como  sempre faço, comecei a observar quais os valores daquele povo e como  trabalhavam os missionários da primeira hora. Esse tempo de reflexão  sobre o povo e o trabalho dos missionários me levou a descobrir por  onde devia começar o meu trabalho. A primeira constatação  foi a de que eu não podia missionar sozinho, isto é que o primeiro  trabalho era o de formar os evangelizadores. Os meus estudos de pedagogia  e o trabalho nos colégios me ajudaram muito no planejamento pastoral  da paróquia. A linha pastoral escolhida por Dom José Maritano,  era a das Comunidades eclesiais de Base, canonizada por muitos e exorcizada  por outros tantos. Em nível de Brasil, evidentemente.  

0 meu trabalho foi o de fundar as comunidades eclesiais de base e formar os seus líderes com cursos bíblicos. Ao mesmo tempo em que se formavam os líderes, procurava-se, juntos, descobrir as necessidades mais urgentes tais como: escola, formação das mulheres, já que são elas mais diretamente ligadas à formação dos filhos, saúde e tantas outras necessidades que eles iam descobrindo, à medida que a Palavra de Deus ia fazendo parte do dia a dia delas.

Toda catequese tomava  essa direção, libertá-los de tudo que torna o homem menos homem. Foi isso que eu fiz, sem pretensão de resultados, de maneira muito simples e natural; sentado no trapiche, contando histórias e ouvindo, participando da vida deles. Talvez, por eu ser leigo, eles me consideravam como um deles, e por isso se sentiam muito à vontade. Após dois anos de trabalho voltei ao sul para cursar Teologia. Eles me esperavam de volta como padre; estão esperando até hoje. Tenho uma saudade muito grande daquele povo que me ajudou a ser cristão e me incentivou na vocação sacerdotal.

 

Do aperitivo ao prato principal

Sem o aperitivo o prato principal não tem sabor. Por isso, a minha primeira experiência na Diocese de Macapá foi fundamental na minha vida como missionário. Lá eu adquiri a paixão pela missão.

Após uma passagem de dois anos como responsável do Seminário de Filosofia em Brusque, Estado de Santa Catarina, fui destinado à Guiné Bissau, o primeiro padre brasileiro do P.I.M.E., nas missões além fronteiras. Essa destinação não era somente a minha realização, mas também a dos nossos padres e irmãos que plantaram a Igreja e semearam nela o ardor missionário. Fui recebido com muita alegria e esperança pelos nossos padres na Guiné Bissau.

Após o estudo do Kriol, visitei às missões, onde o P.I.M.E. está presente, para conhecer o trabalho dos padres. Foi muito bom esse primeiro contato com a realidade de cada missão, como inicio de inculturação.

Partindo da minha realidade   brasileira, onde existe mais de sessenta milhões de Afro-brasileiros que herdaram dos antepassados traços das religiões africanas e, que portanto, vivem um sincretismo religioso, disfarçado de cristianismo, comecei a pensar na formação dos catequistas, já que outros padres trabalhavam nessa direção. Não foi fácil. Um mundo completamente diverso do meu mundo conhecido, fui aos poucos tentando descobrir os valores cristãos já presentes no meio deles. Comecei  por não ter pressa de batizar, o que aliás, não aconteceu  nos nove anos que lá vivi. Na África a gente não pode  ter pressa, o Cristo deve ir entrando naturalmente na vida deles, sem a pressão  do missionário. É o Evangelho o elemento julgante na missão, isto é, se estão preparados ou não para o Batismo.  
  Se o Batismo for dado antes do tempo, corre-se o risco de criar cristãos híbridos. O trabalho com os catequistas não só da minha missão mas de toda  a Guiné, me ajudou a crescer como missionário. A Guiné  Bissau marcou a minha vida para sempre.

Após nove anos de missão, a Direção Geral me chamou de volta ao Brasil para um trabalho de Animação Vocacional. Encontrei um Brasil diferente. A juventude que havia deixado já não existia mais, e a que encontrei não se parecia nem um pouco com a anterior. 0 primeiro ano foi só para me reinculturar, isto é, descobrir qual era a força motriz que movia os jovens; qual era o centro de interesse deles. Nesse mundo de jovens e adolescentes passei os últimos dez anos da minha vida, falando de vocação e de missão.

 

Vamos a eles

Antes de mais, devo comentar sobre a situação da Igreja no Brasil em relação às missões ad gentes.

Fala-se muito de Missão ad gentes, mas a ação não corresponde muito ao conteúdo. Fazemos muito barulho, muita festa, mas de concreto se vê pouca coisa. A cifra dos missionários além fronteira apenas ultrapassa os dois mil, mas se contarmos padres e irmãs que estudam em Roma ou prestam serviços às suas respectivas congregações, esta cifra diminui bastante. Outro fator importante a ser considerado é que os missionários além fronteira pertencem às Congregações Religiosas e aos Institutos Missionários; conseqüentemente as  Dioceses estão à margem desta ação missionária. 0 povo é muito mais aberto à Missão além fronteira do que padres e bispos. "Recebemos, de graça, de graça devemos dar" (Mt. 10, 8). Uma Igreja que só se preocupa em manter a sua fé, mas não a dilata, corre o risco de morrer asfixiada.

  

Animação vocacional

O meu trabalho se restringiu   à animação e acompanhamento vocacional de jovens e adolescentes. Evidentemente que não se pode falar de animação vocacional, sem fazer animação missionária. Há una grande diferença entre um animador vocacional que já trabalhou na missões daquele que nunca foi às missões. Quem já  foi fala do que viveu concretamente; quem não foi fala do que já  ouviu e leu. Além do mais, é necessário conquistar os padres diocesanos a fim de que eles deixem espaço a uma animação vocacional propriamente dita. Portanto, é preciso que o animador se coloque a disposição deles, participando dos encontros de pastoral, de formação de jovens, em suma das atividades paroquiais. Todavia permanece como prioridade a animação vocacional missionária.  

     

Lugares da animação

Os lugares mais comuns da animação são as paróquias. É lá que se pode encontrar os jovens e adolescentes, seja na "Catequese crismal", "grupos de jovens", "movimentos" e "Pastoral vocacional". A presença do missionário na formação dos catequistas é de capital importância. Uma vez que eles se conscientizam da importância da dimensão missionária além fronteira, eles inculcam nos catequizandos o ardor missionário.

Uma pastoral missionária   e vocacional nos seminários diocesanos é muito difícil. Eu tentei pelo menos em três seminários, mas os resultados foram poucos. Há um medo tremendo de que a gente vai roubar as vocações.   Abrem-se as portas, mas o seu movimento é restrito e controlado. Uma das motivações para esse comportamento é a falta de padres na Diocese. Primeiro devemos suprir as nossas necessidades depois, se sobrar, os outros. É necessário criar uma mentalidade missionária  nos seminários e isso leva tempo. Tudo isso é conseqüência de uma abertura ainda acanhada da Igreja no Brasil em relação à missão ad gentes.

     

A reação dos jovens

Os jovens de hoje andam em busca de clareza e de verdades, mas infelizmente, eles trombam em cada esquina com a mentira e a corrupção. Andam em busca de testemunhos, seja na Igreja como na família. Infelizmente, nem sempre um e outro são exemplos de vida para eles. Por isso, quando convidados a participarem   de encontros vocacionais, vão em grande número e reagem positivamente às propostas que lhes são feitas. Mas lhes faltam apoio tanto na família como na Igreja. Eles só encontram o padre na Missa. O padre tem tantas reuniões que dificilmente lhe sobra um tempo para  estar com os jovens. Percebe-se muitas vezes nos encontros e nos colóquios com eles que existem problemas familiares sérios. Antes de qualquer  proposta, é necessário dá-los uma formação humana em sentido pleno. Conhecem pouco de Cristo, porque a nossa catequese é mais doutrinal e ritualista. "Deus faz surgir das pedras filhos  de Abraão". Essa é a nossa grande alegria; apesar de tudo isso, alguns jovens respondem positivamente e fazem um caminho formativo. Prova disso são aqueles que já estão nas missões e outros que estão chegando perto da ordenação. Também aqui devemos ter paciência e esperar o tempo certo, e não antecipá-lo. O moto a seguir é este: nem pessimismo e nem entusiasmo demais. Devagar e sempre.

Por outro lado os jovens   com os quais nos encontramos jamais nos esquecerão. Serão bons pais de famílias, bons colaboradores nas pastorais. E na medida do possível, homens que ajudarão a construir uma sociedade mais justa. Se nós trabalhássemos apenas para mandar jovens para o seminário, seríamos os homens mais frustrados mundo. Seria como plantar duzentos alqueires de terra e colhermos cinco sacos de feijão.

Além do mais os   jovens que Deus coloca em nossas mãos são estes: do nosso tempo, com essa história, com os problemas hodiernos. Não adianta  chorar o passado, dizendo que ontem era melhor. Tal maneira de pensar não  corresponde à verdade. Os jovens de hoje são generosos e cheios  de entusiasmo. Somos nó s que precisamos mudar e usar uma metodologia e um conteúdo que façam arder de amor a Deus e ao seu projeto como acontecia com os jovens de ontem. É uma questão de acompanhar a história e suas mutações. Com isso, não quero dizer que o animador deve se modelar aos jovens. Eles não querem isso. Querem um animador que tenha a coragem de contradizê los. Querem um  animador que seja apaixonado e que acredita naquilo que diz. Eu acredito neles. Aliás, quero agradecê-los por me terem permitido participar da vida deles e assim permanecer jovem interiormente.

     

As dificuldades nesse trabalho

“Quem quer tudo  fácil nem sempre consegue o que busca”. 0 mundo hoje é  fascinante. A mídia apresenta aos jovens um prazeroso e sem suor. 0 mundo do "faz força que eu gemo". Num mundo desses, como é que um jovem vai deixar se atrair por um Cristo na cruz? As vezes encontramos  jovens que buscam o sacerdócio como meio de vida por falta de perspectiva  no mundo do trabalho; outros porque não são equilibrados afetivamente   e buscam o sacerdócio como refúgio e outros ainda porque acham  bonito ser padre. O padre no Brasil é muito respeitado. É preciso que ele seja muito ruim para não ser querido na comunidade. Por isso, o animador deve descobrir qual o verdadeiro motivo que leva um jovem a escolher o sacerdócio. Aliás, quando um jovem insiste muito que quer ser padre, é melhor despachá-lo logo. Ser claro que a Igreja  não é agência de emprego ou o lugar para se refugiar dos problemas. 0 acompanhamento personalizado é muito importante nesse  caso.

As distancias é   um outro problema para nós do Brasil. Não podemos esperar que os jovens venham até nós, temos que ir onde eles se encontram.   Nesses últimos dez anos fiz mais de um milhão de quilômetros.   Alguém me disse que eu morava no carro e passeava em casa. A cama  que menos me deitava era a minha. Nessas viagens precisava mudar a linguagem, dependendo da região e do grupo a ser atingido.

Outro problema é   a falta de material, subsídios. O animador deve preparar todo o material  a ser usado. Existe muitos subsídios, mas não missionários. Em cada realidade o animador deve se adequar .

     

Facilidades para trabalhar

Os nossos jovens são bons, apesar de todos os problemas que os cercam. Não precisamos provar para eles que Deus existe. Deus já está implícito no coração e na alma deles. Estão abertos ao diálogo. São sensíveis aos sofrimentos alheios. 0 jovem brasileiro gosta de encontros, de grupos de oração, reflexão. Enfim, estão em busca de algo que lhes dê um sentido à vida. Essa índole dos jovens facilita muito o nosso trabalho. 0 fácil acesso a casa deles é um fator importante. Quando um padre vai jantar numa família, mesmo pobre, pode ter certeza que a coitada da galinha vai para a panela. A fé incondicional da família é muito importante na caminhada vocacional deles. Se o animador é animador de verdade, se sente muito à vontade no meio deles.

     

O P.I.M.E. é aquilo que é

Eu, Pe. Darci, não posso me queixar não. Sempre encontrei as portas abertas de nossas paróquias. Muitas e muitas vezes os próprios padres levavam os jovens para os encontros vocacionais, enfrentando quilômetros e quilômetros de estradas. Todas as vezes que foram solicitados responderam positivamente ao convite. Não se pode exigir de padres idosos o que não está ao alcance deles.

Gostaria de dizer que em muitos de nossos padres existem ainda um certo preconceito em aceitar vocações locais para o Instituto, já que o nosso carisma é a formação do clero local. No Brasil essa idéia deve acabar. 0 nosso trabalho prioritário é o de contribuir para que essa Igreja se abra generosamente às missões. Nada de escrúpulos. Uma vocação missionária não é propriedade nem do Bispo e nem do P.I.M.E.. É da Igreja Universal.

     

Meu retorno à Guiné Bissau

Por dez anos seguidos   falei às crianças, adolescentes, adolescentes, jovens, famílias   e padres sobre as missões. Chegou o momento de dar testemunho de tudo o que falei. Como eles iriam acreditar em mim, seu não retornasse.   "As palavras convencem, mas o exemplo arrasta". Penso que agora sou muito   mais animador vocacional do que quando estava no meio deles. Agora fala a minha vida e não a minha boca. Volto para a Guiné Bissau com a mesma paixão com que trabalhei nesses últimos dez anos. Vou sentir saudade, claro que vou! Seria anormal se não sentisse; afinal, deixo minha mãe já velhinha, meus irmãos e amigos. Todos eles são valores que eu não posso esquecer. Devo a eles também a minha vocação missionária. Unidos em oração e em espírito.


  Pe. Darci Augusto Alves – P.I.M.E.
           darci42@libero.it