Vivendo em terra de missão entrevista com Maria Aparecida Bordini
No
dia 23 de agosto, Maria Aparecida Bordini, leiga engajada na paróquia
de Ibiporã (PR), retornou ao Brasil, depois de ter vivido, por uns
meses, como voluntária nas missões da Guiné Bissau,
África. Ela compartilhou a vida dos missionários e missionárias,
dando sua contribuição de costureira. Dom Pedro Zilli, bispo
da Diocese de Bafatá, relata: - "Maria fez uma experiência
completa, concentrada, da nossa vida missionária: viveu com os missionários
nas comunidades, com o povo, trabalhou, ensinou, aprendeu"!
M.M.:
O que a levou às missões na Guiné Bissau?
-
Há treze anos, venho participando junto aos padres do Pime de um
trabalho voltado à formação vocacional e, durante
este tempo, estando em contato com eles, acabei me interessando pela vida
missionária. Confesso que há muito tempo tinha o desejo de
participar de uma experiência na missão, não importando
verdadeiramente se esta minha vontade de ser útil seria realizada
na Amazônia, no Mato Grosso ou além-fronteiras. Tive a oportunidade
de realizar na África, na Guiné Bissau, com dom Zilli, filho
de Ibiporã, essa experiência, por alguns meses.
M.M.:
Como foi seu contato inicial com a Guiné Bissau?
-
É um país muito bonito, com florestas, com muito verde. Isso
faz lembrar o Brasil. Há cultivo de arroz, milho, amendoim, feijão,
mandioca e frutas como manga, banana, predominando o caju. Fui recebida
com muito carinho por todos. Parecia até que já conhecia
aquele povo há muito tempo. Apesar de encontrar um pais em ruínas
por causa da guerra, o povo demonstra ter muita esperança no futuro.
Já no aeroporto, fui recebida pelos padres Darci Augusto Alves e
Marcos, que me disseram: - "Daqui para frente, você é uma
missionária!". Tentei viver isto durante todo o tempo.
M.M.:
Quais foram as comunidades missionárias visitadas por você?
-
Visitei aproximadamente quinze comunidades, sendo que algumas, apenas de
passagem. A comunidade onde permaneci por mais tempo foi a de Catió,
dirigida pelo pe. Darci onde se encontram algumas religiosas brasileiras.
Estive também em Bedanda, onde me encontrei com ir. Ana Maria que,
por sinal, é de Londrina. Passei pelo Catequistado de N'Loren, onde
está o pe. Luiz Miranda, de Assis, e outras realidades da Diocese
de Bissau, retornando depois a Bafatá.
M.M.:
Qual foi sua real participação na vida dessas comunidades?
-
Eu me envolvi em quase todos os tipos de atividades desenvolvidas pelas
religiosas em suas comunidades. Tive a oportunidade de colaborar no trabalho
de recuperação de crianças desnutridas, através
de pesagem e distribuição de uma "multimistura" bastante
nutritiva, utilizada na alimentação. Em Bedanda, pude vivenciar
a realidade da rotina de um ambulatório médico e, no Catequistado,
participei de cursos onde se ensina corte e costura, pintura, bordado ,
tendo a oportunidade de ensinar um pouco de minha profissão de costureira.
Participei também de celebrações litúrgicas,
reuniões de catequese e do terço em família e pude
sentir que são cristãos bastante fervorosos.
M.M.:
Sabemos, que durante sua permanência na África, você
não conseguiu escapar da malária, passando por uns "maus
bocados". Como foi isso?
-
Mesmo tendo tomado alguns cuidados preventivos, como a vacina e outras
providências neste sentido, fui vítima da malária ou
paludismo. Fiquei muito debilitada, fraca mesmo, sem vontade para nada.
Mas, graças a Deus, com muito repouso e com a atenção
e os cuidados que recebi, correu tudo bem e posso dizer que estou inteira,
recuperada mesmo.
M.M.:
Como você viu e sentiu a vida do missionário em seu campo
de ação?
-
Eles vivem como os primeiros cristãos, enfrentando dificuldades,
desafios, doando-se inteiramente em cada gesto, em cada palavra, em cada
ação. Preocupam-se com o dia-a-dia, com a vida de seu povo,
É muito bonito o trabalho que realizam através da evangelização,
em todos os campos: na pastoral com os jovens, com as famílias,
no desenvolvimento cultural, enfrentando, quase sempre, costumes e tradições
que escravizam o povo. O que se vê é uma preocupação
muito grande com a mortalidade infantil, com o analfabetismo, com a saúde,
com a orfandade, com a própria sobrevivência do povo. É
impressionante a coragem com que cada padre, cada religiosa, realiza este
trabalho tão bonito e importante.
M.M.:
Como é sentir-se parte do povo de Deus em terra de missão?
-
Acho que os leigos que tiverem oportunidade de sair de seu país
para serem voluntários além-fronteiras, devem fazê-lo.
Estar a serviço, sentir-se útil foi muito importante para
mim. É importante, também, que cada comunidade, cada diocese,
cada Igreja local amplie o trabalho de envio de leigos para as missões.
M.M.:
O que a impressionou durante seu tempo de missão?
-
O que mais me impressiona é a doação total do
missionário. O amor ao Cristo vivo na pessoa do irmão, dos
mais pobres, dos mais carentes. Isto é muito bonito. É também
um desafio muito grande, não só para os missionários,
mas para toda a Igreja. Viver a missão por inteiro. Viver o Antigo
Testamento, realizando o projeto do Novo Testamento.
M.M.:
Maria, esta experiência trouxe alguma mudança importante em
sua vida?
-
Poder conhecer de perto a vida missionária foi uma experiência
muito importante para mim. Passei a valorizar ainda mais o trabalho do
missionário. Mesmo por período tão curto de tempo,
"pude sentir na pele" o que é viver longe da família, dos
amigos, da pátria. Porém, foi muito gratificante fazer parte
desse projeto de Deus. Espero voltar um dia.
M.M.:
O que você diria a uma pessoa que sente desejo de ser voluntário
em terra de missão?
-
Diria que a missão não é aventura radical, mas doação
total. É esquecer-se do eu para viver o outro. Diria que a missão
é o caminho mais curto para a santidade. Falo principalmente ao
jovem: - "Não fique agarrado ao seu 'mundinho', não pense
duas vezes! Você não imagina como as pessoas se sentem felizes
com pequenos gestos de doação como: cantar, brincar ou, simplesmente,
estar junto. Se alguém sentir este chamado, pense nele com muito
carinho. Vale a pena"!
Fonte: Mundo e Missão