"Tu, vem e segue-me!"

     por Pedro Carlos Tomaseli  (sacerdote missionário do PIME)
 

Em Pouso Redondo (SC, Brasil), tudo parece ser muito pacato.
Vive-se em meio a montanhas, planícies, campos, arrozais
e várias lavouras, juntamente com um princípio
de industrialização emergindo.
Os costumes culturais e religiosos do povo conotam tradição
e simplicidade. Foi nesse contexto que nasci, cresci
e respondi ao chamado de Deus em minha vida
 

SEMENTES

Quando estava na catequese, já vivenciava o forte e suave convite de Jesus para segui-lo. Enquanto trabalhava nos arrozais, cogitava na minha cabeça os ensinamentos de Cristo. Muitas pessoas contribuíram para o desenrolar de minha vocação. Houve uma catequista que mais bravamente lançou uma sementinha na minha caminhada de discípulo de Jesus. Ela já sabia que eu tinha me enamorado pelos ideais de Jesus. Há sempre anjos da guarda que aparecem em nossa vida e ela foi um deles para mim. Assim sendo, a sementinha lançada já começava a germinar. Minha vovó materna também me apoiou muito na minha vocação. Estou convicto de que ela, lá do Céu, intercede por mim, hoje, na minha vida de presbítero.

Desejando imitar a Cristo e ser seu discípulo, o caminho a percorrer seria entrar no seminário. Mas como materializar isso? Primeiramente, precisei de muita oração e discernimento para me sentir chamado por Deus a ser sacerdote. Obviamente surgiram muitas barreiras, dúvidas, altos e baixos, irresoluções, angústia existencial, sentimentos conflitantes, também vividos por alguns profetas e apóstolos. Todavia, isso foi muito bom para o meu crescimento humano e como filho de Deus. Conseguia ver o dedo de Deus na minha própria história pessoal.

VOCAÇÃO

Em certa ocasião, alguns padres do Pime visitaram a minha cidade e propuseram um encontro na paróquia sobre vocação. Recebi livretos que comentavam sobre o Instituto Missionário e seus mártires, além de outras brochuras vocacionais. Achei um pouco duro, e até "cruel", o que alguns povos tinham feito com alguns missionários do Pime. Porém, captei depois que eles simplesmente levaram a sério, com determinação e obediência, o mandato missionário de Jesus: "Ide por todo o mundo, proclamai o evangelho a toda a criatura" (Mt 16,15). Compreendi, também, que o martírio poderia ser uma realidade na vida de qualquer missionário.

A CAMINHADA

Fiz acompanhamento vocacional com um dos padres animadores vocacionais do Pime e ingressei no seu seminário em Brusque (SC), em 1994. Naquele seminário, fiz um ano preparatório, cursei Filosofia e o ano de Espiritualidade. Foi um tempo agraciado por Deus. Tempo magnífico de discemimento, oração, pastoral e vida comunitária.

Próxima etapa: Teologia. No Pime, temos dois lugares onde os candidatos à vida missionária são enviados: Monza (Itália) e Tagaytay (Filipinas). Pediram-me para cursar Teologia nas Filipinas. Hesitei muito no começo devido ao idioma a ser enfrentado: inglês, bem como a diversidade cultural entre Brasil e Filipinas. Mas, como tinha vocação à vida missionária, lancei-me então naquele vasto arquipélago.

Ao chegar, percebi como a Ásia é exótica, fenomenal, peculiar, deveras diferente do nosso país. Entre outras diferenças físicas, nas Filipinas há vulcões, além de centenas de ilhas, por onde se espalha a população. Naquela região, todo mundo se parece, porque raras são as misturas étnicas. Os filipinos não são monolíngües como a gente, pois fazem uso do idioma nacional, o Filipino (Tagalog), e o inglês. Os espanhóis deixaram algumas marcas pela região. Contudo, o estilo norte-americano está entrando e se enraizando muito mais que o modo de vida herdado dos espanhóis. Muitos filipinos labutam para sobreviver. Infelizmente, há um ponto comum entre Brasil e Filipinas: a corrupção. Os dois países precisam fazer uma urgente revolução neste aspecto visto que, em ambos, os cidadãos de formação católica constituem a maioria.

CONVIVÊNCIA

No seminário do Pime de Tagaytay (60 km de Manila), há seminaristas provindos de 6 países: Índia, Itália, Brasil, Filipinas, Mianmar e Costa do Marfim. Vocês não acham que nossa convivência assemelhava-se mais com a passagem bíblica "Torre de Babel" do que com a do "Pentecostes"?

De minha parte, uma vez que eu era "estrangeiro", certamente houve muito estranhamento, expectativas não realizadas, problemas corriqueiros, e a exigência de constantes adaptações. Porém, a beleza da minha vocação e a certeza de que Jesus estava comigo, e estará comigo até a consumação dos séculos (Cf. Mt 28,20), falaram mais alto. Além do mais, dei-me conta de que a paz é possível: eu me relacionava serenamente, sem violência, com pessoas de seis diferentes nacionalidades. Línguas e culturas diversas não devem ser encaradas como sérios empecilhos para construirmos o Reino de Deus. Em Tagaytay, estávamos partilhando o mesmo ideal missionário, labutando pelo mesmo reinado de Cristo. Como São Paulo sonhava, estávamos vivendo: "E toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai" (1712,11).

Fui ordenado diácono em Parañaque City, no dia 6 de junho de 2003, juntamente com outros oito co-irmãos. Não restam dúvidas que saudade e curiosidade se entrelaçavam em mim quando estava distante da pátria. Creio também que muita gente que me conhecia experienciou a mesma coisa.

A MISSÃO

Meus pais têm acolhido com muito júbilo e, indubitavelmente, com muito orgulho seu filho, presbítero missionário, ordenado no dia 5 de junho de 2004, na minha paróquia de origem. Os padres e paroquianos de minha comunidade de origem, o bispo da minha diocese (Rio do Sul), amigos e familiares, o Pime como um todo, muito me incentivaram e me acompanharam na minha jornada na "Escola de Jesus" e na preparação de minha ordenação presbiteral. Espero que estejamos sempre unidos na oração e através de outros meios de comunicação.

Fui destinado a trabalhar em Assis (SP) por um tempo, como animador missionário e vocacional, e coadjutor na paróquia São Vicente de Paula, junto ao pároco, pe. Jorge Pecorari, missionário do Pime. Conto com as orações de todos, a quem peço sempre: ouçam e correspondam ao chamado de Cristo em sua vida. Termino com as palavras do profeta Isaías: "Alarga o espaço de tua tenda, estende as cortinas das tuas moradas, não te detenhas, alonga as cordas, reforça as estacas" (Is 54,2).
 

    (fonte Mundo e Missão)