Pe.
Paulinho Amorim, animador vocacional-missionário
brasileiro,
trabalha em Nápoles, na Itália.
Em visita a Mundo e Missão, concedeu-nos o seguinte depoimento
por Paulo Aparecido Amorim
VOCAÇÃO
Meu
primeiro contato com o Pime deu-se em 1986, ao participar do encontro vocacional
que o Instituto organiza tradicionalmente em Ibiporã, PR. Pe. Lino
Zamperoni, a quem devo o início de minha vocação,
despertou-me a curiosidade pelo serviço missionário, pela
Igreja e ensinou o que é vocação.
Minha
família mudou-se para Palhoça, SC. Lá havia um seminário
dessa família missionária, onde conheci o jornal Missão
Jovem e estudei durante quatro anos.
Depois,
pedi um tempo e fiquei quatro anos fora. Trabalhei, namorei, fui catequista.
Mas, aos 25 anos, ainda me questionava: "O que Deus quer de mim? Onde me
sinto mais feliz?" Resolvi repensar a vida. Colocada na balança,
a idéia de ser padre pesou mais do que a de constituir família.
Meu pedido foi aceito e voltei para o seminário.
Desta
vez, fui a Brusque, em Santa Catarina, onde o reitor e o diretor espiritual
foram muito importantes na minha decisão pela vocação
missionária. Em Brusque, estudei cinco anos. A teologia, no entanto,
só poderia ser feita na Itália ou nas Filipinas. A proximidade
da língua e o convívio com italianos ajudaram-me optar pela
Itália. E lá fui eu!
ITÁLIA
Era
inverno. Das árvores, só troncos e galhos. A cultura, diferente.
Mesmo tendo convivido com padres italianos, o estar em outro país
é experiência chocante.
Estudei
italiano em Busto Arsizio, de onde fui a Monza, perto de Milão.
Monza acolhe seminaristas de muitos países. Convivi com indianos,
birmaneses, africanos de várias nacionalidades, italianos. A miscigenação
cultural causou-me um impacto maior do que o fato de estar na Itália.
Convivíamos com culturas diferentes, modos de expor-se, jeitos de
ser, comportamentos distintos. A simplicidade do jovem birmanês,
a inteligência do indiano, a sensibilidade do filipino, a amizade
dos italianos, a radicalidade de um africano... Conviver, conhecer a cultura
do outro, foi - para mim - uma riqueza imensa.
Nos
finais de semana, fazíamos apostolado. Não tínhamos
o "apostolado do cafezinho": a visita às casas para o papo informal.
Ficávamos na paróquia. Havia o contato com as famílias,
mas no oratório paroquial. 0 oratório é o espaço
paroquial das crianças e dos jovens, geralmente gerido pelos pais,
com catequeses, torneios, brincadeiras com os filhos...
Só
freqüentei as casas depois de três anos, após conhecer
as famílias no oratório. Quando você é acolhido
em uma família italiana, ela sempre prepara o melhor para você,
a melhor comida, o melhor vinho... As vezes, ficávamos conversando
até meia-noite, Hoje, mantenho a amizade com muitas delas, que ainda
perguntam como estou, como não estou.... A preocupação
com o outro, com seu bem-estar, é uma virtude que elas têm
e a gente deve destacar. A experiência de apostolado era, geralmente,
em duplas. No primeiro ano, o colega era indiano. No segundo, fiquei sozinho.
No seguinte, o companheiro era birmanês, que tinha mais dificuldade
com o italiano do que o indiano. Tudo isso nos enriqueceu, porque crescemos,
tentamos superar as dificuldades juntos, partilhamos de muitas alegrias.
Quatro anos e meio depois, recebi o diaconato em Milão. E, em 23
de agosto de 2003, fui ordenado sacerdote na minha cidade, em Santa Catarina,
na paróquia da Ponte do Maruim.
DESTINAÇÃO
Depois
do diaconato, o superior geral me propôs o trabalho de animação
missionária vocacional no sul da Itália, durante uns três
anos e meio, findos os quais eu poderia realizar meu desejo de ir para
as missões. Aceitei a tarefa com prazer, com muita alegria. Cheguei
em Nápoles no início de outubro do ano passado. Sou o primeiro
padre brasileiro do Pime trabalhando lá. Meu companheiro é
um jovem padre italiano, o padre Luca. Nossa função é
a de promover a vocação missionária entre os jovens
das paróquias napolitanas e da região. Algumas conhecem o
trabalho do Pime e dos animadores que já estiveram por lá.
Nelas, retomamos um antigo projeto posteriormente interrompido -
chamado "Jovens e Missão", que existe há muito tempo em Milão.
Pois
bem, acompanhamos 15 jovens, novos, que não conheciam o Pime. E
desenvolvemos um trabalho paralelo com os que já conhecem o Instituto.
Durante o ano, reunimos mensalmente os 15 jovens. Discutimos cultura, missão,
as grandes religiões, como o islamismo, o budismo,... a realidade.
Assuntos que são como janelas abertas a esses jovens.
Deles,
quatro expressaram o desejo de fazer uma experiência missionária
em um dos países onde o Pime está presente. Eu me comprometi
a vir com eles ao nosso país, porque nossos missionários
nem sempre têm o tempo para acompanhá-los. E a coisa nasceu
desse jeito.
EXPERIÊNCIA
Quatro
jovens napolitanos, três meninas e um rapaz, estão comigo
na periferia de São Paulo, vivendo uma interessante experiência
de voluntariado, durante um mês, na Paróquia Santa Clara e
São Francisco, de pe. Maurílio Maritano.
Eles
convivem com crianças que estudam em um período e, no outro,
nada fariam, se não estivessem no centro social da paróquia,
pois não têm onde ficar enquanto os pais trabalham. Uma monitora
acompanha o trabalho voluntário, que se inicia às oito da
manhã e só termina às cinco da tarde. Dos quatro,
uma jovem já expressou o desejo de ir para o convento e de tornar-se
freira, independente de ser, ou não, missionária. O projeto
tem esse objetivo vocacional: fazer a experiência e deixar o Espírito
agir. Ele pode despertar no jovem o forte desejo, a busca da vontade de
Deus na própria vida.
A
finalidade da experiência é que eles, junto conosco, possam
tornar-se animadores missionários dentro das suas próprias
paróquias.
SENSIBILIDADE MISSIONÁRIA
Na
Itália, percebi duas realidades distintas. Talvez me engane, pois
não conheço a fundo toda a história. Sei que tanto
o norte, como o sul - têm histórias distintas. E isso influi
na cultura, no jeito de viver e no comportamento do povo. A Igreja, por
exemplo, é muito mais estruturada, organizada e metódica
no norte. As paróquias com mais de 5 mil habitantes têm pároco
e coadjutor. No sul, não. Só uma ou duas paróquias,
que eu vi, têm coadjutor. Não possuem oratório, como
no norte. Como no Brasil, o pároco faz um pouco de tudo. A estrutura
paroquial é precária, mas o povo é receptivo, muito
aberto e acolhedor.
No
norte, percebi sensibilidade missionária, porém do tipo assistencialista:
eu faço e ajudo, mas se devo ir... "ali, vamos ver!". No sul, ao
invés, pareceu-me diferente. Feita a proposta de experiência
aos jovens, eles toparam, mesmo que alguns estivessem em dificuldades.
MENSAGEM
O
que me fez missionário além-fronteiras foi o Evangelho: "Ide
a todo o mundo e anunciai o Evangelho". Esta frase me dá coragem,
alegria para ir onde for preciso. Um dia, eu ouvi um coirmão anunciar
na missa: "Há um missionário brasileiro em Nápoles,
na Itália". Então, gente, está na hora de nós,
brasileiros, doarmos algo a um país do Primeiro Mundo, como a Itália.
Não só o Terceiro ou Quarto mundo precisam de missionários.
0 Primeiro Mundo precisa do Evangelho, mais até do que a África
ou a Ásia.
Seja,
também você, missionário ou missionária de olho
no mundo.
Fonte Mundo e Missão