"Para que todos tenham vida"

           por Costanzo Donegana e Pedro Miskalo

Atrás de uma mesa repleta de papéis e contas a pagar, um sorriso e os braços abertos.
Lá, na periferia de São Paulo, padre Maurílio Maritano, um incansável missionário do Pime,
recebeu Mundo e Missão para a seguinte entrevista

M.M.: Depois de andanças pelo Brasil, o senhor chegou à Vila Joaniza, em S. Paulo. Como foi o primeiro encontro?

 Cheguei ao Brasil em 1969 e, depois de alguns anos, fui enviado à Vila Joaniza, vi que a presença da Igreja era necessária nesta área sem saneamento, saúde e moradia. Fiz um levantamento dos bairros e definimos alguns pontos para formar comunidades. Nasceram várias, algumas das quais hoje são paróquias. Quero destacar a grande participação do povo, que sempre caminhou conosco.

M.M.: Mas, e a questão da saúde...

 Nós tínhamos um grupo, que eu chamei de Pastoral da Saúde, do qual participavam alguns médicos. E percebemos, por volta de 1975, que faltava toda a estrutura de assistência médica, de ambulatório. Então, pensamos: vamos construir uma clínica? Naturalmente, o governo fará a sua parte.
 E iniciamos, então, um movimento para reivindicar um posto de saúde em Vila Joaniza, porque havia apenas um posto precário em casa alugada na Vila Constâncio. Depois de dois anos de luta popular, conseguimos um posto de saúde. O povo se mobilizou, principalmente as mulheres, acompanhando, não só a construção, mas também o funcionamento do posto. Eu também acompanhava.
 Mais tarde, lá pelo ano de 1984, eu soube de um projeto de hospital na área, sem lugar definido. Em reunião com representantes da comunidade, eu propus: vamos entrar nessa luta? Aí, de 84 a 91, depois de muitos encontros, assembléias, discussões, passeatas, foi inaugurado o hospital, perto de onde hoje existe um Shopping Center. Na sua inauguração, o então governador Mario Covas reconheceu que foi a vitória do povo. A participação popular foi muito importante, em dois sentidos: primeiro nas reuniões e, depois, nas comissões que iam constantemente à Secretaria da Saúde, para reivindicar. Além disso, com movimentos de massa, em eventos especiais, passeatas, assembléias...

M.M.: E a questão da moradia?

 Nesse campo, tenho uma experiência interessante. Houve uma ameaça de despejo na favela Campanária. O povo resistiu, fizemos celebrações de solidariedade lá mesmo e a favela ficou. Hoje ela está mais ou menos urbanizada e reconhecida como tal. Os moradores estão tranqüilos, com água, luz, o mínimo para viver, até razoavelmente bem.
 Trabalhei alguns anos em Brasília e ali tive uma briga feia com o governo, que derrubava barracos em uma favela. Tivemos confronto aberto com o pessoal do governo. Com a mudança de governador as coisas se acertaram. As famílias estão assentadas. Estão bem!
 Aqui também houve uma derrubada, mas juntei umas 15 pessoas, que contaram a história do episódio. E nasceu um movimento que, aos poucos, com a ajuda de uma advogada, negociou com o proprietário, comprou o terreno e levantou as casas de novo. Eu sempre acreditei que nós devemos nos envolver nessas coisas. Afinal, Cristo disse: "Eu vim para que todos tenham vida". 0 que fazemos em lutas populares é para garantir a vida.

M.M.: Sua luta, pelo jeito, continua...

 Pois é... Pelos anos 74, 75, alguns padres do setor começaram a pensar nas crianças e adolescentes abandonados. Um deles, pe. Ubaldo Stenic, dizia: "agora com o metrô, vai ter muita molecada andando por aí... e temos que pensar em um projeto, para acolher essa criançada".
 E foi montado um projeto sem nome e nem convenio, no início. Dele, surgiram as primeiras entidades, mais tarde chamadas de OSEM (Orientação Sócio-educativa do Menor). A primeira foi a Nossa Senhora das Graças, no Jabaquara. Mais ou menos um ano depois, fizemos convênio particular com a prefeitura, que veio a "assumi-Ia", mais tarde.
 Eu sabia que era necessário fazer um trabalho social nas comunidades que surgiam. Então, fundei as Obras Sociais Santa Rita de Cássia, hoje, Obra Social Santa Rita de Cássia. Depois do núcleo na Sta. Rita, fundei outro em S. Francisco e outro em S. João Batista. Mais tarde, mais um, este no S. Carlos.

M.M.: Eram creches?

 Uma creche e três núcleos de menores. Naquele tempo acolhíamos umas 500 ou 600 crianças. Hoje, mais de 700. 0 projeto faz parte da educação, porque as crianças passam aí meio período: comem, estudam, praticam esportes. Elas têm de 7 a 14 anos. Ao ver tanta criança na rua, também fizemos uma quadra de esporte em nosso terreno atrás da paróquia. Está coberta com zinco e bem cimentada. É usada pelo EGJ (Espaço Gente Jovem). As crianças gostam de brincar lá. Há sempre alguém brincando com elas, dando uma certa orientação. Nos finais de semana, entra em ação a Pastoral do Esporte, que é brincar na rua. Lá, não se fala palavrão, o pessoal é comportado, enfim. As crianças brincam uma ou duas horas. E nossa Pastoral da Comunicação trabalha com teatro. Já apresentou a peça "Auto da Compadecida" em todo canto. Agora prepara a "Paixão de Cristo", com a participação do povo.

M.M.: E os meninos de rua?

 Com eles eu estava envolvido pela Cáritas diocesana de Santo Amaro, que dirigi por dez anos. Eu havia comprado uma casa para acolher crianças da rua. Depois, comprei outra. Tínhamos uns vinte meninos entre as duas. Era uma atividade paroquial. Quando o Superior Regional, pe. Vicente Pavan, em 1994, pediu-me um trabalho social em nome do Pime, decidi que as duas casas de abrigo, Emaús e Betânia, fariam parte do Pime também.
 Esses abrigos acolheram adolescentes ainda por uns 3 ou 4 anos. Mas eu estava angustiado, até que, um dia, procurei o Conselho e disse: "se, por acaso, fico doente, grave, e não puder continuar, quem que vai tocar as casas abrigo? Enquanto temos tempo, é melhor fechar, encaminhar as crianças para suas casa". De fato, conseguimos levá-las todas para suas famílias, com as quais também trabalhávamos. Todas, afora um caso ou dois, voltaram para casa e estão bem. Tem quem telefona, dando notícias...

M.M.: Fale-nos do Centro Social.

 O Centro Social João XXIII, fundado pelo Pe. Aldo da Tóffori, foi reformado e, em 12 fevereiro de 96, foi reconhecido em cartório como Centro Social Pe. Aldo da Tóffori (CESPAT). (Pe. Aldo faleceu em setembro de 1995). 0 centro passou a abrigar cursos de informática e serigrafia. Depois vieram outros.
 Extraordinária a presença dos leigos neste trabalho! Um casal italiano, da Associação Leigos Pime (ALP), é de ouro. Trabalhou comigo durante três anos. E uma leiga italiana, hoje voluntária na África, colaborou por dois anos. A presença desses leigos foi muito, muito significativa. São apaixonados pelo Brasil e inseridos na realidade brasileira.
 E os leigos brasileiros têm muita vontade de trabalhar. Um grupo de mulheres trabalham com tear, com tapetes.

M.M.: Como é seu trabalho com os jovens?

 Várias entidades trabalham com crianças, mas não com jovens e adolescentes, porque essa faixa de idade é complicada, e seu tempo fica extremamente ocioso. De 14 anos para cima, ocupação zero. A maioria são jovens "a risco": têm problemas com a família e com drogas. Um amigo oferece (a droga) e eles entram no tráfico. Parte da paróquia está bem na "boca". Então, resolvemos encarar essa briga. E o Centro Social ocupa o tempo desses jovens.

M.M.: Voltemos, então, ao Centro Social...

 Sim! Os cursos de serigrafia e de informática continuam. 0 de informática cresceu muito. Temos 18 computadores e espaço para mais quatro, pelo menos. Oferecemos o básico, web design, internet, manutenção e montagem de micro e, agora, Curso de Rede, porque é fundamental saber mexer com isso. Muitos alunos já fazem o site na internet. Bem, estamos sempre tentando aprimorar os conhecimentos.
 Serigrafia, ou silk scream, é muito interessante, e um menino pode muito bem se organizar em casa, fazer um atelier no fundo de quintal. Então, nós iniciamos um curso de quadricromia. É um curso avançado, mas o equipamento é caro. Não dá para o aluno ter em casa. Então lhe oferecemos nosso equipamento. Temos também outros cursos: telemarketing, auxiliar administrativo, atendimento ao público, capoeira, espanhol, inglês e violão, que é bem interessante.

M.M.: É um leque bem aberto...

 Como um guarda-chuva. Porém, o fundamento de tudo isso, a base, é o projeto "Arte e Cidadania".
Dizemos ao jovem: "você vem, não para informática ou serigrafia, nem nada disso. Você vem para o Projeto Cidadania, no qual existem os cursos".
Nossa dinâmica é a do conhecimento pessoal, dos direitos e deveres, do resgate da dignidade e da própria auto-estima. Também trabalhamos temas importantes, como a preservação do meio ambiente. Neste ano, devido à CF, o enfoque foi a água. Estas dinâmicas têm um valor imenso e dão excelentes resultados. Tudo o que foi refletido pelos jovens transformou-se em grandes desenhos, que eles pintaram no muro, embelezando o Centro.

M.M.: Como se dão os encontros?

 São três encontros por semana. Um é aula de cidadania, os demais são os cursos. A aula se dá com técnicas de socialização, debates, conversas...
Circulam por aqui mais de 300 jovens.

M.M.: Existe algum trabalho com as famílias destes jovens?

 Mantemos contatos, o que não é suficiente. Muitas famílias vem para conhecer, conversar, etc. Mas temos que montar um trabalho mais específico, mais sistemático, que é o acompanhamento da família também. É um projeto interessante, mas nele estou sozinho. A equipe da paróquia é muito boa. Agora, em outubro vamos iniciar a missão permanente. Que não nos falte a Graça de Deus!
 

Animadores e um aluno se manifestam

Muitos jovens falam que o CESPAT é seu segundo lar. São muito criativos: teatro, música, atividades... um potencial que estava escondido. Com os encontros de cidadania, eles despertam para o lado participativo, cultural, crítico. Muitos dizem que, a partir dos encontros, fizeram nova reflexão da própria vida e da realidade. Perceberam que podem transformar o mundo em que vivem.

"O grupo de trabalho é como uma família. Na família sentamos para falar, discutir, refletir, verificar o andamento do projeto, descobrir o melhor caminho a tomar. Todos participam: educadores, pessoal da limpeza..." (Letícia)

"Arte e cidadania" tem o objetivo de fazer com que o jovem reflita, através da participação e maneira de agir, e se solidarizam com os demais. Ele descobre seus valores como pessoa e como cidadão. Como ser social, percebe que também participa da sociedade. Estabelece um relacionamento com o outro: "eu participo da tua vida e tu participas da minha".

"As distâncias acontecem por questões de trabalho. Ninguém abandona sem motivo justo. As vezes o aluno, chorando, vem justificar o abandono." (Francisco)

"Quando a gente tem oportunidades como esta, não podem estender. O curso me ajuda muito no relacionamento com os colegas de trabalho e me dá uma bagagem maior para lidar com todo mundo que trabalha comigo".
(aluno Francisco)

Contato:  CESPAT - Centro Social Pe. Aldo da Tóffori
              Fone: 11 56128151    e-mail: cespat@uol.com.br         http://www.cespat.org.br/
 

 Fonte Mundo e Missão