Milão, 15 de setembro de 1926

                                                                        Amados coirmãos,

1. É o tempo em que  geralmente vós  vos recolheis para os Exercícios Espirituais,
e Deus sabe o quanto desejaria  encontrar-me entre vós para me edificar
dos vossos bons exemplos, para nos exortarmos reciprocamente  a prosseguir
com coragem e confiança no árduo trabalho que o Senhor nos confiou
de  difundir seu  Reino no mundo. Infelizmente os deveres de meu ofício
e importantes negócios em algumas missões, que requerem aqui minha presença,
não me permitem de iniciar neste ano a visita que ultimamente vos fiz esperar;
porém a solicitude que sempre sinto para as vossas almas me leva, embora distante,
a vos dirigir uma palavra de exortação, que queirais acolher
não como  de um vosso mestre, mas palavra afetuosa de um pai
que ardentemente vos ama e que sente de ser vosso devedor de todos os seus cuidados.

Se os missionários fossem santos...
2.  Nós missionários amiúde nos perguntamos por que a obra
de conversão do mundo infiel anda tão devagar. Costuma-se aduzir várias razões
para explicar este doloroso fato, e realmente o problema se pode considerar de muitos lados,
alguns dos quais não nos dizem respeito. Pela parte que nos toca, e é a principal,
o problema é da mais límpida solução. Para salvar o mundo Deus, em sua infinita sabedoria,
quis ter necessidade de colaboradores. Deus faz bem sua parte:
fazem-na  também os homens que chamou a coadiuvá-lo?
Suponhamos que toda a Igreja, todo o povo cristão dirigido por seus bispos e seu clero,
sinta de verdade o dever que lhes incumbe de promover com todos os meios a propagação da fé:
suponhamos que os missionários, instrumentos mais diretos na conversão das almas,
sejam santos, e os infiéis não tardarão a se converter.
O problema das missões foi e é ainda quase ignorado pelo povo cristão:
os que se interessaram no passado foram sempre uma minoria, e é extremamente doloroso ver,
também hoje, embora se tenham dados alguns passos, como a grande questão esteja longe
de ser compreendida e enfrentada em cheio pelo clero e pelo povo.
É extremamente doloroso, porque os povos católicos teriam energias mais do que suficientes
para promover mais dignamente a obra da evangelização dos infiéis,
se pelos sacerdotes fossem instruídos, organizados e sobretudo
inflamados por um maior espírito de fé e zelo.
O Santo Padre, a Congregação pela Evangelização dos povos se preocupam bastante,
mas são como generais com poucos soldados. A divina missão confiada pelo Senhor à Igreja,
de pregar o Evangelho aos povos da terra é uma obra de cooperação; onde esta é escassa,
será necessariamente lento o movimento de conversões.
Mas não é disso que quero vos falar, porque o argumento interessa mais particularmente o clero dos países cristãos.

Sejais missionários santos
3. A vós, missionários em serviço ativo no campo, interessa especialmente a  vossa parte de cooperação,
e é por isso que vos digo:  sejais missionários santos caminhando nas pegadas dos grandes
que vos precederam, e, pela parte que vos concerne, vosso dever apostólico
será plenamente atuado: as almas que o Senhor  em seus misericordiosos desígnios confiou
a cada um de vós para que as leveis à salvação, serão salvas e,
no último de vossos dias podereis dizer com o Divino Redentor:
Guardei os que me destes, e nenhum deles se perdeu.
Eu disse: sejais santos caminhando nas pegadas dos grandes que vos precederam no campo do apostolado.
Sim, temos diante de nós grandes exemplos e desejo que  os leveis em conta.
O nosso Instituto, embora relativamente novo, pode vantar um depósito de tradições
apostólicas tão nobres, tão vivificadas pelo mais alto espírito de sacrifício,
de abnegação, de zelo, que não tem nada a invejar aos maiores Institutos missionários.
Este sagrado depósito é a nossa verdadeira riqueza, a nossa ufania;
sobre ele eu baseio minha esperança nas bênçãos divinas, que sempre acompanharão nosso Instituto,
sendo esse que  faz benquista e apreciada pela Igreja nossa família missionária.
4.  Desde o Beato Mazzucconi, até o último nosso missionário defunto
- para falar somente dos mortos - que coroa de heroísmos e de mártires ignorados, quais e quantas fadigas,
suores e vidas sacrificadas antes do tempo para lançar os alicerces daquelas Igrejas que vós,
entre tantas agruras e sofrimentos continuais a edificar!
Qual foi o segredo, qual a alma de tanto zelo, de tamanha dedição, de tanta perseverança,
de um heroísmo que muitas vezes chegou até o sacrifício da vida?
Eis, amados coirmãos, eis o que queremos aprofundar para nos exortarmos a seguir aquelas pegadas e,
pelo que depende de nós, cooperar com todo o nosso poder para a conversão dos infiéis,
procurando a salvação de maior número possível de almas nas  missões que a Igreja nos confiou.
5.  Os nossos missionários, também do ponto de vista humano, foram homens superiores:
entre eles houve de eminentes pela doutrina e conhecimento das línguas;
outros por sua particular perspicácia e tato em se assemelhar e tratar com os vários povos
por eles evangelizados; muitos foram os estrategas do apostolado ocupando novas posições:
todos foram coragiosos e prontos a toda fadiga, toda ousadia.
Mas nem engenho, nem prudência, nem coragem os fizeram grandes a nossos olhos
e aos de Deus: foram grandes, salvaram muitas almas, fundaram Igrejas
principalmente porque foram homens santos,  Isto é homens de vida interior:
este foi o  segredo, a alma de seu zelo, de sua perseverança e seus sucessos.
Este é o ensino solene que nos tramandaram e que euo amo vos lembrar,
porque  sempre os nossos missionários de hoje e os de amanhã baseiem sobre ele
a  razão primeira e essencial de sua santificação e a das almas que lhes são ou serão confiadas.
6.  O fervor da vida de um missionário, sua atividade regular, sapiente, álacre,
incansável, a alegria inalterável de sua vida e sua perseverança no trabalho,
embora no meio de privações e dificuldades, foram sempre o resultado de uma vida de fé.
Se a fé se embaça, também o zelo diminui de intensidade; então  também os mais fortes sentem o cansaço,
o desânimo que pode chegar até à completa desconfiança e à perda da vocação.
Se o missionário vive de fé, então é grande, é sublime, é divino:
a Igreja e as almas podem atender tudo dele: nenhuma fadiga, nenhuma dificuldade o assusta,
nenhum heroísmo é superior às suas forças; se o espirito de fé nele é abatido e fraco,
ele se mexerá, trabalhará também, mas pouco ou nada   produzirá sua fadiga
e o pouco sucesso de suas obras, feitas sem espírito, aumentará nele a  desconfiança e o aviltamento.

O missionário é o homem da fé
7.  O missionário é por excelência o homem da fé: nasce da fé, vive dela.
Para ela trabalha de bom grau, sofre e morre. O missionário que não é isso,
no máximo é um amador do apostolado, será logo um entrave para a missão,
uma falência para si mesmo, quando, Deus não o permita, não será também  causa de  estrago nas almas.
Sem a fé o missionário não se explica, não existe, e, se existe, não é o verdadeiro missionário de J. Cristo.
O missionário que quer viver e se manter à altura de sua vocação, deve alimentar
constantemente este espírito de fé, iluminando-se e afervorando-se com a meditação
das grandes verdades da nossa santa religião; deve atingir em Deus,
do qual é instrumento, com a oração contínua, a graça de que necessita para seu ministério,
e sem a qual ele nada pode na ordem da eterna saúde de sua alma e das que  ele foi evangelizar.
Meditação então e oração, eis a força do missionário, as únicas e verdadeiras origens
e razões do seu zelo, de sua perseverança e de seu sucesso.
Um missionário que acha enfadonha meia hora de meditação, que reza distraído
seu breviário e maltrata a Missa, que tem pouca familiaridade com o SS. Sacramento
e com a Virgem... que com a desculpa das obras e do trabalho que o ocupam,
faz pouca conta da meditação e outras práticas de piedade, tal missionário
é um coitado de ilusp; seu trabalho é vácuo e sem verdadeira consistência,
e o projetos, dos quais pode ter a boca cheia, nada mais são que puros e simples  palavrórios,
freqüentemente expressão de uma alma vã e leve.

Salvar as almas como as salvou Jesus Cristo
8. A grande, sublime missão  do homem apostólico é a de salvar as almas,
e salvá-las como as salvou Jesus Cristo. Para que possa dignamente absolver a esta tarefa
o missionário deve sempre ter presentes os grandes motivos que lhe impõem como uma lei,
como uma necessidade o dever do apostolado, o zelo para a saúde das almas.
Por isso, ele meditará amiúde sobre o amor de Deus pelas almas, seu  valor e excelência,
sobre o perigo no qual a maior parte dela se encontra de irem eternamente perdidas,
sobre a nobreza da vocação apostólica mais de qualquer outra rica em méritos,
e sobre o prêmio  reservado aos verdadeiros apóstolos do Evangelho.
A criação deste nosso admirável mundo, o mistério inefável da divina  Redenção,
a santificação das almas que requeriu tantos milagres da divina onipotência: a Eucaristia,
a S. Virgem, a Igreja, tudo nos diz quanto Deus amou e ama as almas.
Ordem natural e sobrenatural, criação e Redenção com todos seus mistérios:
tudo que Deus fez, faz e fará, tudo está no fim ordenado à salvação das almas,
tudo é efeito do grande amor de Deus pelas almas.
Estas coisas deve cotidianamente meditar o missionário: então seu zelo será fundado
sobre uma base de granito: ele sabe porque se mexe, se afadiga, e como deve tratar as almas.

O missionário é outro Cristo
9. O missionário deve se apresentar aos povos infiéis como  alter Christus.
O missionário de fato não é nada se não represenrar Jesus Cristo.
Quando no missionário  comparece o homem então ele é ineficaz.
É porque em muitos missionários da Igreja Católica não é retratado perfeitamente Jesus Cristo,
que os infiéis não se convertem. Como quereis que se converta o pobre de infiel,
se no missionário católico não vê senão o europeu, no máximo um ministro da  religião
dos dominadores, não diferente de um dos tantos ministros protestantes?
Como quereis que  as almas dos infiéis se dobres diante do missionário altero,
desprezador, interesseiro, amante da bebida e da boa companhia?
Amados coirmãos, diz-se que os missionários são poucos; mas quanto menos
são os verdadeiros missionários, que retraem em toda sua vida  a verdadeira figura de Cristo!
Mas como imitarão a Jesus Cristo  se não o fizerem objeto contínuo de sua meditação?
Fazendo só o exame de nós mesmos, como, dizei-me,  representaremos suas divinas feições
se não o fixarmos continuamente, sem estudar e analizar sua vida do berço à Cruz, ao altar?
É por isso que po Evangelho deve ser nosso costumeiro livro de meditação,
nossa leitura cotidiana; livro que não se esgota porque nunca se para de o estudar,
compreender e realizar em nossa vida.
Somente o missionário que copia fielmente Jesus Cristo
em si e pode dizer aos povos com o apóstolo S. Paulo:
fazei-vos meus imitadores, como eu o sou de Cristo,
somente ele pode reproduzir sua imagem nas almas dos outros.
Quem não faz assim, em vão fadiga e se queixa que suas fadigas não encontram correspondência.
10. O missionário deve nutrir um terno amor, deve ter uma verdadeira paixão pelas almas.
Mas como terá este amor se não for homem de oração? É da meditação
do que Cristo bendito fez para a salvação  das almas que brotou a nossa vocação.
O Crucifixo no fez missionários e é ainda Ele que deve  nutrir em nós o amor pelas almas.
Tomemos então freqüentemente como sujeito de nossa meditação os mistérios
da paixão e morte de N. Senhor e façaos disso uma regra especialmente na Quaresma.
Estes mistérios são a verdadeira nascente do zelo apostólico: pensando nos sofrimentos de Jesus,
pensando na Cruz, às humilhaçõesdo Calvario, se aprende a amar
as almas e a abraçar cada sacrifício para lhes procurar a salvação.
Cada zelo que não jorra do mistério da cruz é efêmero, porque só o exemplo do que Cristo
sofreu para as almas pode eficazmente nos empurrar a abraçãr os sacrifícios
inerentes a cada obra de verdadeiro zelo. Enamorados de Jesus Cristo crucificado,
seremos sem dúvida grandes salvadores de almas.

Exortação aos missionários
11. Os autores do precioso livrinho Monita ad missionarios se perguntam
como é que missionários  que tinham feito os votos de pobreza,
castidade e obediência, puderam nas missões cair vítimas da avareza,
da moleza e da vaidade, e não sabem encontrar outra razão  a não ser aquela
que tinha-se enfraquecido muito naquelas regiões o espírito de oração.
Lembrado o mandamento de Cristo: Vigiai e orai para não cair na tentação,
dizem que se esta foi a ordem de Cristo aos Apóstolos, quanta mais razão
temos nós de dizer que o missionário apostólico deve se nutrir cada dia do pão da oração!
Se ele descuida de se nutrir, necessariamente desmaiará na via da virtude.
Graves palavras, escritas centenas de anos atrás, mas verdadeiras também hoje.
E estes santos autores querem que o missionário consagre cada dia
pelo menos duas horas  ao exercício da oração. Eu não digo duas horas,
mas, amados coirmãos,  acreditem que uma hora de meditação,
também dividida em dois tempos, como se fazia nos anos do seminário, não é demais!
Porque pode acontecer que deveres de ministério nos impeçam de fazer
nossa meditação pela manhã, na hora fixada para isso, fixada pelo nosso horários,
mas cuidemos de não deixá-la por isso.
Ao missionário fervoroso e de boa vontade não faltará maneira de encontrar
durante o dia uma hora para se apartar e fazer sua oração. Que se também isso fôr impossível,
existe sempre a tarde para poder se recolher e rezar, como faziam,
imitando N. Senhor, todos os santos homens apostólicos.
12. Missionários, homens naturalmente fortes e decididos, não façamos as coisas pela metade.
Tornando-nos missionários pensamos em nos doar inteiramente a Jesus Cristo.
Se não lhe formos unidos com uma grande e total dedicação, que não pode ter quem não reza,
Ele será obrigado pela nossa pouca generosidade a ficar longe de nós;
privar-nos-emos assim, de um grande número de graças e sem dúvida cairíamos em nossa miséria.
Estejamos unidos a Deus através de uma vida de e nos tornaremos instrumentos  admiráveis
de suas misericórdias. Não nos iludamos: não  arde se não um coração aceso do amor de Deus.
Quando  o nosso coração estiver unido a Deus na intimidade da meditação e da oração,
então  queimará o fogo,  e o nosso coração  nos sugerirá aquele zelo  inteligente,
prático, perseverante, incansável que marca o verdadeiro apóstolo de Cristo.
Amados coirmãos, amemos nossa meditação. Só ela tem o segredo de fazer
alegre e feliz a nossa vida de missionário, porque nos transforma, transfigura, diviniza.
Se lhe formos fiéis, não lhe pouparemos tempo, o Senhor nos pagará
com grande generosidade, e nós lhe ficaremos tão afeiçoados
até o ponto de nos maravilhar de tê-la transcurado.
Saindo da meditação, na qual fomos iluminados dos eternos esplendores de Deus
e das nossas eternas verdades, veremos melhor Jesus em nós, nas almas,
em tudo e não desejaremos outra coisa que de lhe agradar e procurar sua alegria com todo nosso poder.
Fiéis à nossa meditação, nos será fácil permanecer fiéis às nossas outras práticas de piedade,
e será fácil  viver naquele espírito de contínua oração que é a atmosfera
na qual  sabe se mover e trabalhar o fiel missionário de Cristo.

Necessidade da oração
13.  É necessário orar sempre,  é uma recomendação para todos; para nós é uma lei,
uma necessidade, uma condição indispensável para frutificar em nossa divina missão
que fazemos, para vencer todas as dificuldades que a entravam.
Quantas dificuldades no caminho de um homem apostólico! Eu penso amiúde em vós,
e enquanto vos admiro pelas belas e grandes obras que fazeis,
e vos venero pelos grandes sacrifícios que cada dia abraçais por amor de Jesus e das almas,
por vós também estou muitas vezes preocupado, especialmente quando
através da vossa correspondência vejo sinais,  embora leves, de  desânimo e tristeza.
Para honra dos nossos missionários devo dizer que nunca ninguém
se queixou das dificuldades, privações, fadigas das quais é  eivada a vida de missão;
por demais nobre é o vosso coração para dardes peso e relevo a estas coisas;
mas há dificuldades e  angústias  morais que conheceram até os Apostolos,
e são Paulo acena a elas em suas cartas: penas e angústias que também vós experimentais,
que são capazes de abater até as almas mais fortes e generosas,
se não forem amparadas por uma poderosa graça de Deus.
A pouca correspondência, as traições, a ingratidão dos convertidos; a solidão e o abandono,
os malentendidos que podem surgir entre coirmãos e com os superiores e o se sentir
incompreendidos e não apreciados; a  escassez de meios que não permitem
fazer tudo o que se queria e as malvadezas dos pagãos que obstaculam o progresso
das nossas obras; sem dizer do assalto das tentações e das lutas
contra o espírito maligno que tenta nossas almas, são todas dificuldades
capazes de produzir em nós tristeza e desânimo.
Quem poderá nos sustentar em tais oportunidades? Deus, somente Deus,
se orarmos com espírito de humildade e de filial e confiante abandono.
Oh, sim! Todos tem necessidade de orar, mas quanta maior  necessidade tem o missionário de orar,
e de orar sempre; ele que vai levar a guerra ao demônio em seus próprios domínios,
e tem contra si todo um mundo de maldade, que gosta tanto de continuar em suas trevas!
Quando no meio de uma ou outra de vossas dificuldades vos lançais aos pés de um Crucifixo
ou do Sacrário, e dizeis a Jesus que é para ele que combateis, é pelos seus interesses  que sofris,
que é pela causa dele que está em perigo; quando em lugar de vos indispor
contra os vossos inimigos e por eles implorais misericórdia e perdão, oh! então,
tenhais certeza, não percebereis mais a sombra do aviltamento e tristeza,
mas saireis de vossa férvida oração como de um banho fortificante,
tonificados e serenos e sempre vencedores, ou mais fortes para continuar vossa luta.
Uma hora de oração dissolve mais dificuldades do que muitas discussões:
uma ardente oração, iluminando o espírito à luz eterna de Deus,
confortando o coração ao calor vivificante do Coração de Jesus,
desanuvia nosso amor próprio, nos infunde humildade e generosidade, e muitas dificuldades,
que antes nos pareciam graves e  insuperáveis, aparecem como coisas  transcuráveis.
14. Amados coirmãos, é necessário orar, e orar sempre.
O missionário tem mais do que o sacerdote em pátria não somente
a necessidade, mas também a possibilidade de orar.
A vida de missão que transcorremos o mais das vezes entre vastas solidões,
forestas e montanhas silenciosas, entre pessoas simples e pobres,
tem não poucos pontos de contato com a vida dos eremos
e favoresce o espírito de contemplação e recolhimento.
Quando o missionário deu suas voltas apostólicas, e depois se retira no centro do distrito,
de quanta paz, silêncio e tranqüilidade ele goza. Quanto mais demoradamente
ele pode então se entreter com seu Senhor que está aí no Sacrário de sua igrejinha,
e está aí principalmente para ele! Se o missionário é homem de fé, quantas graças
pode então armazenar para si e as almas a ele entregues, quantas graças pode
lucrar para levar adiante seus projetos, para fazer prosperar seus apostólicos empreendimentos.
É também nestes tempos de respiro que o bom missionário faz seu dia de retiro mensal,
para se renovar no espírito e ganhar novo alento para prosseguir
com sempre maior ardor e mais firmes propósitos em sua santa vocação de salvador de almas.
15.  Solitário na solidão, o missionário deve porém ser pronto a deixá-la sempre que seu dever,
o bem das almas o requeira, lembrado que a verdadeira santidade não está
no gozo de um espiritual repouso, mas no perfeito cumprimento da vontade de Deus,
que para ele é o  desenvolvimento fiel de seus deveres de homem apostólico,
que em nada se poupa para procurar a glória de Deus na salvação das almas.

Mas o missionário santo, se quebra sua solidão, não interrompe suas comunicações com Deus.
Se não pode levar consigo Jesus Sacramentado, leva consigo seu recato
e sua solidão interior: sabe que ele é templo do Espírito Santo, que Jesus cada manhã,
descendo do céu nele, faz sua habitação em seu coração.
Também nos mais laboriosos ministérios ele, como os anjos em seus ofícios,
não  afasta seu espírito de Deus, e reza também viajando, no meio de intenso trabalho.
Como é fácil, como é suave a oração que pode fazer o missionário
em suas longas e freqüentes viagens! Muitas vezes a natureza, com seus admiráveis
espetáculos que oferece a seu olhar, o convidará à contemplação da beleza e grandeza de Deus;
outras vezes a visão das aldeias pagãs que atravessa arrancará de seu coração
súplicas para sua conversão; sempre ele pode  com seu Rosário espargir
ao longo do caminho pequenas sementes de oração que não cairiam em vão.

Antes a oração e depois a pregação
16. Quanto erram  e de quantos auxílios espirituais se privam os missionários
que descuram da oração e os ordinários exercícios de piedade,
sob pretexto que não tem tempo de orar pela multiplicidade dos ministérios,
quase se pudessem tratar os interesses de Deus esquecendo-o, descurando da própria alma!
Caros coirmãos, não haja um só entre vós que caia neste funesto logro.
Certamente não devereis fadigar mais do que os Apóstolos: então, o sabeis,
eles não encurtaram nunca suas orações. Preferiram até se desembaraçar
de algumas incumbências embora santas, para se aplicarem  antes à oração,
depois à pregação. Nós, pelo contrário, nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra.
E depois, sejamos sinceros: é justamente puro amor de Deus,
verdadeiro zelo pelas almas o que torna alguém habitualmente descurado de suas práticas de piedade?
Ele porém encontra tempo para se expandir em muitas atividade de pura ordem exterior
e de duvidosa utilidade para um sério trabalho apostólico... ele tem tempo para aquelas visitas inúteis,
leituras vãs,  caça e diversões, recreações e conversas até tardas horas.
E estaremos medindo tempo justamente com o Senhor? Não o esqueçais,
oportet semper orare,  e quando não se reza não se é mais contentes de estar em missão,
se esta fôr difícil e dura, ou se oferece comodidades ficamos lá porque
em pátria estaríamos  pior; mas de bem não se faz mais: dá-se mau exemplo aos missionários jovens,
enfastiam-se os superiores e nenhum proveito para os fiéis.
Disse que dá-se mau exemplo aos missionários jovens.
O ponto é de sumo relevo e quero dizer uma palavra.

Conselhos aos missionários jovens
17. Às  vezes nos queixamos que os jovens missionários não rendem
como deles se poderia esperar; não tomam o caminho
e a forma de santos e exemplares operários do evangelho.
Atribui-se o fato bastante doloroso à escassa vocação, à incompleta formação
que estes jovens teriam tido nos seminários donde sairam. E poderia ser;
mas poderia se verificar a hipótese que estes jovens, chegando na missão
e encontrando-se livres das amarras da disciplina do seminário,
não tenham encontrado naquele ambiente a disciplina bem mais persuasiva
e convincente dos missionários anciãos com os quais foram destinados a trabalhar.
É grave erro pensar que o missionário, enviado em missão
quando mal concluiu seus cursos no seminário, tenha com isso terminado sua completa preparação.
Há outra preparação, que não se pode dar em pátria: há a preparação imediata
que o missionário deve receber e esta deve ser feita no ambiente
no qual é destinado a trabalhar. Esta, de certo modo,
é a mais importante preparação, a que resta para a vida.
O missionário jovem fará tudo o que verá fazer: também se tivesse sido escassa
a preparação recebida em pátria, o exemplo vivente dos missionários
tera uma força decisiva para educá-lo àquelas virtudes,
aquele metodo de vida que deverão acompanhá-lo em seus dias.
É da máxima importância que o novo missionário tenha sempre vivo e aceso
o inicial fervor com o qual geralmente parte e enfrenta o mundo novo para ele da missão.
Aqui ele deve por convicção dedicar-se aquelas práticas de piedade
que fazia no seminário ajudado pelo horário. Quanto aproveitará ao missionário
para isso o bom exemplo dos coirmãos! Quão deletério se tornará, pelo contrário,
o exemplo de desleixo em matéria tão importante!
Vós entendeis, melhor do que eu saiba me exprimir, o que quero dizer.
O exemplo é uma grande coisa, mas tem uma grande  importância para nós missionários,
porque missionário quer dizer o que há de mais alto, perfeito e heróico seguindo Cristo;
tudo aquilo que então  fere esta concepção, dói e lesa o espírito.
Já faz vinte anos que estou na Itália e posso vantar alguma experiência neste campo.
Passam pelo seminário missionários  fervorosos de espírito, e são de grande edificação:
os jovens vêem e aprendem e se sentem mais reforçados em sua vocação.
A vista destes homens tem mais eficácia do que muitas exortações.
Passa algum outro descurado na piedade, que reza a Missa  rapidamente,
que não comparece às práticas comuns? É também notado e o efeito é desastroso.
Não será assim também em missão? Fecho a parêntese.

Nossa pátria está nos céus
18. Para angariar almas, conquistá-las,não servem os meios humanos.
Estamos na terra entre os homens, mas tratamos de interesses
celestes e divinos, trabalhamos num mundo sobrenatural.
Para nos movermos sucedidamente nesta esfera devemos estar em contínua
comunicação com Deus, devemos ser homens cuja pátria está nos céus.
Somente assim nossas palavras e fadigas terao eficácia,
e chegarão até às almas, até o coração de Deus.
Há missionários que também trabalham, fundam e promovem obras,
pregam e se afadigam de tantas maneiras, mas recolhem
poucos frutos e convertem poucas almas. O fato é que não rezam
suficientemente e seu trabalho é em grande parte mecânico,
pouco ou nada vivificado pela graça, que é indispensável para ganhar as almas.
Ficamos mal, às vezes, de não conseguir grandes coisas,
de obter poucos resultados das nossas fadigas; lamentamo-nos
da dureza de coração dos neófitos e dos pagãos, que não correspondem
às nossas curas; mas nós, que estamos convencidos de ter muito trabalhado,
nos questionamos se também outro tanto rezamos?
19. Sejais homens de vida interior, homens de oração e,
se também tivésseis poucos dons naturais,
a graça de Deus suprirá abundantemente ao que falta.
Quantos missionários de poucos dons, mas santos, conseguiram
grandes frutos de bem nas missões, onde outros mais inteligentes e  dotados trabalharam em vão!
Vale saber pregar, mas muito mais vale saber rezar. O missionário
que possui bem a língua e sabe pregar, mas reza pouco,
explicará otimamente as verdades da nossa religião, mas deixará fria as almas;
o missionário que tem muita intimidade com Deus na oração, também se não fôr feliz na exposição,
terá sempre o dom de infundir o espírito de Jesus Cristo nas almas,
que é o que a pregação se propõe.O primeiro ensinará Jesus Cristo, o outro o mostrará.
Vós entendeis a diferença!  Se aquele que ensina não é homem de vida interior,
sua língua dirá coisas vazias (São Gregório).

Nem desconfiança, nem pessimismo
20. Às vezes a desconfiança, o pessimismo podem insidiar um missionário
bem no meio de sua apostólica carreira. Então, também aqui,
não há outro remédio a não ser a oração, que colocando-nos em nosso lugar de pedintes,
nos faz ver nossa miséria e nos faz ver de que lado
devemos esperar o conforto e o fruto de nossas fadigas.
Não se encontram missionários homens de oração que sejam pessimistas sobre o trabalho das missões.
E quando, dentro ou fora das missões, ouve-se de algum missionário que,
depois de tudo, os resultados que se obtém no trabalho apostólico
entre os infiéis não correspondem aos esforços que se fazem para obtê-los,
é certo que quem fala assim não é homem de oração.
Devemos reter como de fé que, como cada oração é atendida infalivelmente
em proporção de sua perfeição moral, assim cada fadiga feita
para Deus para obter a conversão das almas é eficaz na proporção em que é vivificada pela oração.
O resultado das nossas fadigas o veremos ou menos aqui, ma ele existe
e Deus o levará em conta. A fidelidade e a onipotência de Deus
e sua bondade nos garantem isso porque, todos unidos na oração,
não somos mais nós que trabalhamos, mas é Ele
que trabalha em nós e por nosso meio, e Ele nunca trabalha em vão.
O missionário nunca deve estar desconfiado: é uma ofensa que ele faz
àquele Deus onipotente que o chamou e pelo Qual trabalha.
O verdadeiro missionário é sempre otimista, sempre cheio de entusiasmo,
aquele entusiasmo que um dia lhe fez deixar tudo e o colocou na sequela de Jesus na via do apostolado.
Revirai, queridos, desde o princípio toda a história da vossa santa vocação.
Quais e quantas dificuldades tivestes que superar, quantos  sacrifícios, dores e lágrimas!
Tínheis diante de vós uma grande miragem e vos impelia o desejo
de dar a Jesus uma prova de um amor maior.
E hoje, que passaram tantos anos de fervores desde vossa primeira Missa,
da inesquecível função de envio,  continua se mantendo em vós vivo o mesmo entusiasmo,
a mesma predisposição de trabalhar para Jesus, de lhe ganhar almas em grande número,
se sofrer muito por ele, que por vós estimou pouco dar todo o seu Sangue e a vida?
Se tal fôr ainda vossa disposição, gozai e agradecei a Deus, porque tendes muita razão;
mas se alguém se sentir desconfiado e  sem coragem, se lhe parecesse ter-se iludido,
se sentisse frio e sem entusiasmo, examine-se, por favor, como foi  em seus anos de missão
sua vida de oração. Examine-se sem preconceitos  severamente,
e talvez encontre a chave do enigma, a razão de seu resfriamento,
como lhe aparecerá claro o remédio para sair.

O culto de Eucaristia
21. Terminando esta breve exortação, não posso não dizer uma palavra
em particular sobre outro importantíssimo elemento de vida interior,
sobre a devoção à divina Eucaristia que gostaria fosse ferventíssima em todos os nossos missionários.
Jesus para nós é tudo, e Jesus está na Eucaristia. E então, que nos pode faltar?
Se faltar alguma coisa não é porque  ficamos longe dele que é a nascente de todas as graças?
Destas simples palavras tirais a conseqüência.
Da Missa façais o vosso paraíso: o Sacrário seja o imã que vos atrai.
Diante do Sacrário  passareis as melhores horas de vossa existência
e as mais úteis para o vosso apostolado; diante do mesmo atrai vossos cristãos e os tornareis melhores.
Em todas as casas que o Instituto mantém, cada noite se abre o Sacrário para a Bênção.
Coloco a máxima importância nesta prática, porque é Jesus
que nos abençoa e não teremos nada a temer para nós e nossas obras.
Esta bênção a imploramos não só para nós, mas para vós todos,
esparramados pelo mundo entre graves perigos e fadigas
que tendes tanta necessidade de graças e confortos.
Olhai para ele e sereis radiantes:  aproximemo-nos em volta do Coração Eucarístico  de Jesus
e desta grande fornalha de amor: nossos corações se vivificarão e acenderão
de tanto ardor de zelo que atrairá atrás de nós almas sem conta.
Assim teremos alcançado o fim de nossa vida que é a nossa santificação,
e o fim de nossa vocação que é a salvação das almas a nós confiadas.

Exortação aos missionários educadores
22.  Acabando, uma breve palavra especial para  os Padres que estão em pátria.
Coirmãos, que comigo repartis a cotidiana fadiga para o bom andamento de nossas casas,
vos incumbe um grande dever em relacionamento ao que lembrei nesta carta.
Os nossos venerandos coirmãos que estão nas missões trabalham
principalmente para formar bons cristãos; nós que  a divina Providência
destina a ficarmos em pátria, trabalhamos a formar bons missionários.
Compreendeis facilmente quanto mais árduo e cheio de responsabilidade é nosso trabalho!
Das missões olha-se com grande esperança às nossas casas, onde se preparam
novas forças para as necessidades sempre crescentes do apostolado a nós confiado.
Se não prepararmos missionários santos é vácuo nosso trabalho;
por isso, se grande cura é de se empregar para dar a nossos jovens uma séria
e completa formação inteletual, muito maior diligência e premura
é de se empregar em curar a formação de seu espírito.
Os Reitores e Padres espirituais, e os que cuidam da educação e formação
dos nossos alunos sintam toda a grandeza, a nobreza, a responsabilidade de seu ofício
e façam que nossas casas de formação se tornem jardins de virtude, cheias de fervor e caridade,
escolas de apóstolos, nas quais sempre se olhe para Jesus no Sacrário
e se veja sempre o mesmo Jesus  na vida santa
e exemplar dos superiores e dos que estão nas casas.
Alimente-se nos jovens um grande espírito de fé: a fé seja o princípo
e o fim de toda ação deles, seja a base, o princípio que informa nosso sistema educativo.
Tudo para Jesus deve ser o nosso lema; nossa educação deve mirar a imprimir
indelevelmente Jesus na mente e no coração de nossos aspirantes,
de maneira que eles se tornem durante toda sua vida uma cópia de Jesus;
só assim poderão bem representar este nosso Divino Mestre
aos povos e continuar dignamente a missão.
E, porque seria vão pretender que os nossos jovens cheguem a tanto
somente com suas forças e as nossas curas, com espirito de fé
procurem  insinuar neles um grande espírito de oração.
Somente se os nossos jovens rezarem, chegarão a uma meta tão alta,
qual é aquela a que aspiram chegando aqui conosco.
Não nos iludamos: são bons todos os outros meios que favorecem as vocações,
se unidos a este  essencial, indispensável da oração. Se este fôr descuidado,
nossos seminários se tornarão  casas de  deformação e fornecerão às missões pessoal impreparado.
Gastemos bem então nossas fadigas e dinheiro e façamos de nossos seminários
sementeiras de missionários santos, e se for possível numerosos.
Se forem santos os missionários que sairem de nossas Casas,
se com todos os esforços trabalharmos para que o bendito Jesus,
só e único Mestre dos Apóstolos que faz chamas reluzentes  de seus mensajeiros,
seja o centro das mentes e dos corações de nossos queridos alunos.
23.  Coirmãos, temos tido em sorte uma vocação completamente divina,
nos foi confiada uma tarefa  absolutamente  altíssima.
Somos chamados a estender sobre a terra  o Reino de Deus
e com as nossas almas devemos salvar as dos outros.
De outro lado estamos convencidos de nossa infinita miséria,
e o próprio Jesus nos adverte que sem Ele não podemos fazer nada:
como conseguiremos fazer frente a tamanho empreendimento?
Sem ele não podemos fazer nada, com Ele podemos fazer tudo.
Sejamos homens de oração e seremos santos missionários.
Meus diletíssimos coirmãos, aceitai estas pobres páginas ditatas pelo coração,
agrade-vos pelo menos meu pensamento, minha solicitude para vós,
e nas vossas orações nao  esqueçais

o vosso amado superior
Pe. Paulo Manna,  Sup. Ger.