o
irmão Lúcio Beninati, depois de ter dado vida ao "Cheiro
de Capim" no Brasil,
volta para
o Bangladesh e escreve...
ASALAM UALAIKUM (A paz de Deus esteja com você)
Aqui, em Bangladesh, estamos no mês do Ramadã. Estou mergulhado nessa grande atmosfera espiritual feita de jejuin, meditação e muita oração. Às 3h30 os encarregados, batendo de porta em porta, acordam e convidam os fiéis a se alimentarem antes que surja o sol e comece o novo dia de jejum e orações. Isso é vivido com tamanho fervor religioso, que eu mesmo me sinto estimulado a viver melhor minha fé cristã e meu relacionamento com Deus. Conforme a tradição islâmica, o Rarnadã é um dos cinco pilares do islã. Lembra a pertença à comunidade islâmica, ensina a autodisciplina, a paciência e o amor a Deus. Os praticantes devem se abster de bebida, comida, do fumo e do sexo, desde o despontar do dia até o pôr do sol. Voltei a Bangladesh após 12 anos de ausência e e maravilhoso me sentir eu diria "quase perdido" entre a enorme multidão e acompanhar o cotidiano de sua vida: sentir-me um deles, alguém que convive com eles. O país é superpovoado. É 60 vezes menor que o Brasil, que deixei recentemente, mas tem a mesma população. Dessa, 85% são muçulmanos; 12%, hindus; 2,6%, pertencem a outras religiões e 0,4% são cristãos. Moro, há três meses, numa favela, Pul Par, no meio do enorme bairro de Kalashur. Estou aqui porque, como no Brasil, decidi aprender e praticar, cada vez mais, a solidariedade com os mais pobres.
A
VIDA NO DIA A DIA
Passo a maior parte dos dias nas estradas para encontrar crianças
e adolescentes, que por aí vivem e moram. São vendedores
ambulantes, carregadores ou coletores de papel e descartàveis. Aqui
há também muitas crianças empregadas em ativida
pesadas e perigosas, como as que trabalham em altos fornos, na fabricação
de vidro. Eu trabalho junto ao projeto de um missionário da congregação
"Holy Cross", que mantém uma casa de acolhida a tóxico dependentes.
Juntos, montamos uma equipe de educadores de rua. Assim, voltei de novo
às crianças de rua, como fazia em São Paulo. Com elas
eu brinco, escrevo, limpo lhes as feridas. São excluídas
e vivem no meio do abandono, da miséria, da droga, da violência.
Sofrem abusos, praticados por quem deveria amá las e protegê-las.
Nossa
presença é para reconstruir lhes a confiança e ajudá
las a sair de todos os venenos desse tipo de vida. Queremos testemunhar
que elas podem con tar conosco e até comigo, branco
e cristão. Por isso, penso que minha presença missionária
no meio deles tem também a finalidade de romper a barreira do preconceito
que existe entre cristãos e muçulmanos. Eu quero, neste país
islâmico, ficar mais próximo, servindo e amando esses nossos
irmãos em Alá Deus e, entre eles, os mais excluídos.
Naturalmente, escrever isso é fácil mas, na prática,
a edificação dessas pontes entre os mundos cristão
e muçulmano é um desafio que passa por muitas provações,
desconfianças, medos e preconceitos.
Foi
assim, dias atrás, nas palavras de Mushumi, uma menina, dez anos,
paupérrima, porém ge¬nerosa e religiosa (ela também
participou do Ramadã, jejuando e incentivando seus amiguinhos no
jejum e na oração). Mushumi mora numa favela, aqui ao lado,
na qual marcamos presença. Talvez, ao ouvir os adultos, que detestam
os ingleses (pelos 200 anos de colonização) e as malvadezas
dos norte americanos e outros cristãos europeus, ingenuamente me
propôs: "Por que, sendo bom e caridoso, você não se
toma muçulmano como nós?".
Superar preconceitos é o caminho certo para a convivência. Veja o exemplo: o dono do meu barraco, um muçulmano idoso, dias atrás, bateu à minha porta. Quando soube que eu estava rezando, pediu me que rezasse pela sua filha, que devia fazer alguns exames... Nós, cristãos, devemos vencer tabus e monstros imaginários, criados ao longo da história. Devemos superar medos e barreiras para nos conhecermos, aproximarmonos do mundo deles com o coração aberto e respeitando a sua religião. Ficar apegados a obscuros fatos históricos, que mancharam ambos os "exércitos religiosos" (cristão e sarraceno) nos tempos das cruzadas, de nada serve! "Procurem o que vos une e não aquilo que vos divide...”, lembrava o bem aventurado João XXIII.
EID MUBARAK
Escrevo
outra saudação de paz: EidMubarak, expressão acompanhada
por três abraços e com a qual os muçulmanos se cumprimentam
no último dia sagrado do Ramadã, data celebrada festivamente
(como é o natal para os cristãos). Seu ponto máximo
é a tradicional oração comunitária, numa área
aberta. Nenhum muçulmano piedoso pode faltar. Eu também participei,
no nosso bairro, e comigo estavam mais de 130 jovens e crianças
do Centro de Acolhida, com os quais trabalho nas ruas. Ajoelhei me com
eles no grande tapete, enquanto todos repetiam de cor, em árabe,
(língua que não entendem) três capítulos do
Alcorão. Invoquei e conversei com Jesus, para que abençoasse
e concedesse paz a esse país e aos muçulmanos piedosos. Em
seguida, durante o dia inteiro, visitei as famílias muçulmanas
que, na véspera, tinham me convidado com insistência. Assim,
visitei mais de trinta famílias, aceitando um pouco daquilo que
me ofere principalmente o doce característico da festa: schemai...
No
fim da tarde, a barriga se queixava de tanta comida.
À LUZ DE VELA, ENTRE DOIS MUNDOS
Escrevo à luz de vela, não por romantismo, mas porque há
uma crise energética em todo o país. Há um ano falta
eletricidade, até mais de uma vez por dia e, assim, a gente fica
horas na escuridão. Além de causar problemas à economia
em geral, a crise prejudica os mais pobres, naturalmente. Através
de suborno, os ricos têm energia elétrica o dia e da convivência
todo. Suas luminárias, ar condicionado, freezers, internet e tv
por satélite, funcionam o dia inteiro.
Em
Gangladesh, há dois mundos próximos e, ao mesmo tempo, longínquos
entre si. Um é real, no qual vive a maioria dos homens, mulheres
e crianças pobres; outro, irreal, artificial e alienante, da minoria
protegida (muitos são cristãos), mas também amedrontada,
isolada em suas 'prisões douradas', repletas de comodidades!
Por aqui, a maioria das pessoas vive muito tempo nas ruas, onde aproveita qualquer espaço, por menor que seja, para conviver, encontrar se, festejar até casos insignificantes. Será que a felicidade não está mesmo nessa vida simples? No estilo de vida que prioriza o relacionamento inter mais que às coisas? Por que Cristo, o Rei do mundo, escolheu um estábulo miserável para ali nascer, sem a mínima comodidade? Por que essa escolha "imprudente"? 0 que Ele quis ensinar a seus discípulos? Quando se possuem muitos recursos, a sensibilidade das pessoas muda... elas se tornam businessmen, burguesas.
Peço a Cristo que nos ensine a dialogar com esses dois mundos e
a sermos pontes, a fim de que eles se aproximem e se encontrem e se amem.
Está é a nossa e a minha missão!