Ele
me chamou e disse: vai!
por Pedro Miskalo
Mundo
e Missão entrevistou o padre Antônio Figueiredo, missionário
do Pime, de partida para a Guiné Bissau, na África
Padre Antônio, o senhor já passou dos trinta. É um caso típico de vocação adulta?
Não! Nasci há 39 anos em Caracol, MS, na fronteira com o Paraguai, quando lá havia apenas uma capela. 0 padre de Bela Vista, a 64 quilômetros, celebrava a Missa na capela, uma vez por mês. Sempre que tinha oração na capela, estávamos lá. Além disso, mamãe sempre nos ensinava orações, incentivava a rezar. As visitas daquele missionário, as celebrações, o modo como transmitia o Evangelho, alguma coisa do seu trabalho me cativava, desde que eu tinha uns 9 ou 10 anos de idade.
Conte nos, então, sobre a origem da sua vocação.
Minha família contribuiu muito nesse aspecto. porque era unida e praticante. Pai, mãe, os dez irmãos. todos sempre lutaram no campo da fé. Até hoje o pessoal participa da Igreja; sem dúvida, há esse lado positivo na minha caminhada vocacional. É esse o ninho das vocações. A pequena Igreja doméstica", como dizia João Paulo 11. Entretanto, o protagonista da missão é sempre o Espírito Santo. Por isso, acho que o que me atraiu mesmo foi a sua ação, que trabalha continuamente e sopra onde quer. Ele também passou na minha vida de um modo todo especial. Ele diz o que quer e cuida daquilo que coloca no coração das pessoas. Creio que éo Espírito Santo que me dá essa força vital, porque nenhum dos outros irmãos tomou o caminho da Igreja.
Como isso foi se concretizando, na prática?
Algumas Missionárias da Imaculada, que trabalham em Caracol, fizeram me uma proposta: se eu quisesse ser padre, deveria trabalhar na capela, para conseguir estudar. Comecei a trabalhar èm janeiro de 1990. Na Páscoa daquele ano, chegou o padre Angelo Pighin, do Pime (hoje, ele mora em Ibiporã PR), e a capela transformou se em paróquia. Até então, eu conhecia um pouco a pastoral da diocese de Jardim, MS, pois participara de alguns encontros vocacionais. Aí, o missionário mostrou me também o Pime. Mas eu vim a conhecer melhor o instituto nos encontros vocacionais com o padre Darei, missionário na África durante longo tempo. Assim, eu estava livre para optar entre diocese e missões. A vida missionária me cativou mais, principalmente devido a algumas frases, motivadoras para as missões, e frisadas pelo padre Darei: "Ide pelo mundo inteiro. Evangelizai, batizai e anunciai tudo aquilo que eu vos ordenei". Ou: "Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi". Ora, eu pensava, "se alguém nos escolhe, a gente deve corresponder". Outra motivação forte veio de João Paulo 11 em diálogo com os latino americanos, ao dizer que nós, que tanto tínhamos recebido, deveríamos "dar da nossa pobreza".
0 senhor trabalhou quanto tempo em paróquias?
Naquela, de 1990 a 94. Depois, fui trabalhar com padres do Pime em Frutal MG, em cuja casa paroquial morei por dois anos. A experiência foi muito positiva, e me ajudou a ter uma visão maior sobre a atividade paroquial. Além do trabalho propriamente dito, eu estudava e participava de um grupo de jovens na paróquia. No início de 1996, o padre Darci apareceu por lá e convidou me a outro encontro vocacional. Fui. Em seguida, decidi entrar no seminário.
Onde o senhor prosseguiu nos seus estudos?
Em Brusque SC. Eu morava no seminário do Pime, enquanto completava o supletivo de Ensino Médio em uma escola pública. Em janeiro de 1997, prestei vestibular e ingressei no curso de filosofia, que teve a duração de três anos. Depois, com outros três seminaristas, fui aprender inglês em Detroit (Estados Unidos), onde permanecemos 11 meses. Voltamos para o período de "espiritual idade", uma época de amadurecimento vocacional.
0 senhor passou por alguma crise de vocação?
Não, porque muitos padres me ajudaram antes, durante e depois do seminário. Eles ampliaram a minha visão missionária e fizeram me, de verdade, entender a própria trajetória. Aprendi, também, que o caminho a gente faz fazendo.
Mas faltava a teologia.
Sim. Terminada a espiritualidade, um outro seminarista (Emerson) e eu fomos estudar teologia na Itália. Estudamos italiano e, durante o curso de teologia, de meados de 2002 a meados de 2006, trabalhamos em "oratórios" nas paróquias, tão comuns na Itália. Voltamos no dia 23 de junho de 2006. 0 Emerson foi ordenado em 29 de julho e eu, no dia 5 de agosto, em Caracol, minha paróquia.
A ordenação é uma espécie de diploma, não?
É uma data inesquecível e um momento muito nobre. Fui ordenado por dom Bruno Pedron, salesiano, da diocese de Jardim. Vários padres, do Pime e da diocese, participaram. Quase todo mundo de minha família esteve lá. Só da parte de meu pai, são 32 irmãos. Todos os meus irmãos de sangue estavam presentes. Até um que, hoje, é membro da Igreja Quadrangular. Temos ótimo relacionamento.
Quando o senhor recebeu a notícia da destinação e por que a África?
Eu soube que iria para a África ainda na Itália, antes da
ordenação, porque já havia expressado aos superiores
e ao diretor espiritual minha paixão ppr aquele continente.
Vários
motivos me levam à África. 0 primeiro veio do exemplo do
padre Darei, que me apresentou aquele continente como o modelo de missão,
sem desprezar os demais, evidentemente. Outros padres também passaram
pela África e falavam com entusiasmo de Guiné Bissau, por
exemplo, ou da Costa do Marfim. Comecei a colocar os pés naquela
terra sem conhecêla territorialmente, só como sonho.
O segundo aspecto tem a ver com a presença africana no Brasil. A gente sabe que o Brasil cresceu através do trabalho africano. Boa parte do povo brasileiro tem no sangue muito da cultura africana. Pois bem, essa cultura negra no nosso sangue indicou me o caminho daquele continente, para o qual me disponho inteiramente, sem planos pré definidos.
Também não alimento planos a longo prazo, porque fui preparado a um trabalho nas missões. Logo, minha vida será dedicada a elas, onde der e vier. É claro que as necessidades do instituto podem variar e cabe a seus superiores decidir sobre as destinações. Então, estou disponível às missões e ao instituto, onde sempre me senti em casa. Digo, com sinceridade, que tenho grande estima pelos coirmãos. Atrás de tudo isso está sempre, como pano de fundo, o Evangelho.
0 que o senhor gostaria de dizer aos leitores?
Que é preciso voltar sempre as origens, à Palavra de Deus,
fundamental para nós, cristãos. Rever a vida com os olhos
de Deus, porque Sua palavra transforma tudo. A vida é Cristo. Cristo
é a palavra viva de Deus, que fala sempre e que espera a nossa resposta.
Levo comigo uma frase de Deus ao profeta Jeremias, quando este iniciava
a sua vocação: "Antes que fosses concebido no ventre de tua
mãe, eu te conheci, te consagrei e te enviei". Penso que a mensagem
é essa e, depois, viver bem a nossa vida, esse dom de Deus, que
a gente põe em prática, colocando a capacidade de amar e
de servir à disposição dele. E nossa liberdade, porque
é nela que se joga toda a caminhada humana.
(fonte Mundo e Missão)